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Cyber attacks podem ser retaliados por bombas?

01/06/2011

Pode parecer absurdo, mas a notícia é verdadeira ao que tudo indica. Os Estados Unidos, em mais uma daquelas atitudes que só podem mesmo acontecer na terra do Tio Sam, estão prestes a adotar uma regra que vai permitir que sejam adotadas medidas de “resposta” militar a ataques virtuais. Isso significa que eles podem bombardear os outros se desconfiarem que o ataque virtual veio de outro país.

Estava ouvindo o Nerdcast outro dia e o pessoal comentava do absurdo que foi a operação militar no Paquistão que resultou na morte do Osama. Os EUA invadiram um outro país SEM AUTORIZAÇÃO com seus helicópteros militares e atiraram numa casa de um cidadão do país em uma zona residencial. Ou seja: eles são hoje os senhores do mundo e fazem basicamente o que querem em nome da Segurança Nacional. Vamos imaginar a hipotética cena, que está presente em quase todos os jogos de videogame feitos por empresas americanas que envolvem guerras (os famosos FPS): há um ataque a alguma grande empresa americana que pode comprometer seriamente a segurança do país. Quem seriam os potenciais autores dos ataques? Você, que joga videogame, já sabe a resposta de cor: Coréia do Norte, China e até mesmo os russos, por que não?

A questão é que a tal invasão realmente aconteceu. A empresa Lockheed Martin, que fabrica os principais jatos da força aérea e vários outros aparatos de segurança, sofreu um sério ataque há mais ou menos 10 dias. Como eu disse no post sobre a PSN, diferentemente da Sony a empresa citada tem um forte esquema de segurança virtual, e mesmo tendo sofrido um ataque muito sofisticado (seguramente mais sério do que o realizado à PSN) não teve nenhuma informação sensível comprometida. Contudo, a simples possibilidade de comprometer alguns dados sensíveis – que em minha opinião jamais deveriam estar em uma empresa privada – gerou o famoso pânico americano que causa tanta insensatez em suas ações. E o que eles fazem quando entram em pânico? Saem jogando bombas nos outros, mesmo que não haja razão para fazê-lo (o povo do Iraque que o diga).

Vão surgir várias justificativas dentro da própria sociedade, dizendo que uma ação orquestrada como a que aconteceu na Lockheed e na RSA só pode ter vindo de um outro governo, e todo o mundo (inclusive a imprensa brasileira) vai achar normal eles saírem jogando umas bombas por aí. A questão que devemos discutir é: será que jogar algumas dúzias de bombas resolve o problema?

Combater ameaças no ciberespaço é bem mais complicado do que combater o que os americanos estão acostumados. Primeiro, porque é muito difícil localizar a fonte do ataque. Ele pode vir basicamente de qualquer computador ou rede de computadores domésticos espalhados ao redor do mundo. Segundo, porque o próprio conceito de autoria é difuso e complexo. Como saber quem foi a pessoa que o iniciou? Podemos chegar a um computador, mas teríamos que cruzar com outras informações para saber quem de fato o estava utilizando. A terceira e derradeira razão é que dificilmente tal ataque parte de uma única pessoa; normalmente se tratam de grupos organizados especialmente preparados para a atividade criminosa.

Chegamos então a pergunta que devemos responder: onde vai cair a bomba? Ou você realmente acha que os EUA vão deixar de jogar bombas em alguém? Faz parte da cultura deles, e mais importante do que impedir que os próximos ataques aconteçam é localizar e matar o culpado. Se pegarmos os dados mundiais sobre computadores infectados – que podem ser vistos em tempo real aqui – veremos que lideram as estatísticas Taiwan, Rússia, China, Espanha Argentina e Brasil. Os dados não levam em conta as botnets, que são ameaças ainda maiores. Então pense como um gestor americano: seu país foi atacado e você precisa jogar bomba em alguém. Pode ser muito difícil ou demorado chegar à real fonte do ataque, mas é possível afirmar que alguns dos computadores dos países acima estavam envolvidos. O que você faria? Obviamente, os primeiros culpados são China e Rússia. Vamos jogar umas bombas neles e explicar depois?

Para finalizar, lembrem-se do que eu disse do caso China contra o Google. Parte da guerra que parece absurda é real e já está acontecendo, mas como os chineses já perceberam, não será vencida com bombas. O próxima grande batalha mundial é a guerra da informação e contra-informação, e algumas empresas americanas já sabem disso. A China já se preocupa com o fato faz tempo. Veremos as cenas dos próximos capítulos.

P.S.: Só para não deixar de dar minha opinião, não acredito que o ataque foi orquestrado por algum país. Tem mais cara de ação criminosa do que outras coisas, mas não dá pra afirmar com certeza.

A falsa escassez de mão de obra especializada em TIC

26/05/2011

Comecei o dia hoje assistindo a mais uma das muitas matérias sobre o tema no Bom Dia Brasil da Globo. O título é sempre o mesmo: sobram vagas e faltam profissionais qualificados. Como já trabalho há algum tempo na área e tenho o que considero uma boa visão sobre o assunto, matérias como essa me incomodam muito. Sei de muita gente que procura emprego e não acha após sair de uma empresa, mesmo tendo excelentes qualificações. Quando penso também nas vezes que precisei contratar alguém para vagas com um salário relativamente bom e tive alguma dificuldade acho que existe um pouco de verdade aí. Contudo, para podermos analisar o assunto precisamos fazer alguns recortes e analisar o problema de diferentes óticas:

  • Existem realmente mais vagas que profissionais habilitados? (lado da empresa)
  • Será que a remuneração é diretamente proporcional à exigência? (lado do empregado)
  • O que é qualificação de verdade? (lado das escolas e qualificação em geral)

A pujança da economia e a abundância de vagas

Começando a análise pelo começo (parece óbvio, mas nem sempre é assim) precisamos analisar se realmente faltam profissionais para as vagas necessárias. Se partirmos do princípio (errado) de que a formação se dá em Universidades, digamos que Brasília gere em torno de uns 400 profissionais de TIC por semestre, somando faculdades públicas e privadas (mesmo as de qualidade duvidosa). Seriam todos esses profissionais absolvidos pelo Mercado? Numa rápida busca no CEVIU e no Vagas por oportunidades em Brasília no dia de hoje, encontramos em torno de 300 vagas disponíveis. Se imaginarmos ao longo de um semestre, a conta é que sim, haveria oportunidade para todos e possivelmente sobraria.

O fato de sobrarem vagas de TIC é ressaltado pelo fato de muitas empresas trazerem profissionais também de outros estados. Vale lembrar que Brasília é um grande pólo econômico, talvez dos mais importantes do país, pelo fato de servir como referência para grande parte das regiões Nordeste e Centro-Oeste. Se pensarmos somente com esse ponto de vista, então seria sim correto afirmar que sobram vagas apra a área de TIC.

Por que então Brasília tem um dos índices de desemprego mais altos do Brasil? Sim, o índice aqui é altíssimo, historicamente acima de 10%, e ainda maior entre os jovens. Aí a coisa começa a ficar interessante…

Com um chicote na mão

Na lista de alunos na UnB frequentemente falamos sobre as empresas de informática de Brasília e suas práticas profissionais. As discussões ficaram mais acirradas com a entrada de grandes players mundiais (como uma certa empresa indiana) na área de informática. O modelo de negócios dominante, entre quase todas as empresas que se dizem de TIC, é terceirização de mão-de-obra para o governo. Ainda que seja mão-de-obra na área de informática, não faz muito sentido falar em mercado de TIC para essas empresas, mas o objetivo não é discutir tecnologia aqui.

A prática das empresas de terceirização de mão-de-obra é simples: receber do governo o máximo possível e pagar para os profissionais o mínimo possível. O equilíbrio financeiro de tais contratos dependem de um índice que calcula o custo do profissional em relação ao que a empresa recebe pelo posto de trabalho, que gira em torno de 2,5 vezes para dar lucro à empresa. Ou seja: ela te paga 5, mas rece do governo 12,5 pelo seu posto de trabalho.

O resultado é bastante óbvio: existe um limite que essas empresas podem pagar para o profissional, e não interessa muito se ele é bom ou ruim. Afinal, o contrato é feito com base na quantidade de pessoas, e pra quê pagar 10 pra um bom se eu posso contratar alguém razoável por 5? Claro que isso mudou com a IN 04/2009, pois agora os contratos devem ser feitos por produto. Mas a realidade é que nada mudou: os produtos são inventados e os profissionais continuam sendo contratados e pagos com a velha metodologia. Deixava todo o mundo feliz, ou pelo menos parecia que sim.

Mas aí aconteceu um fenômeno que muita gente não contava, principalmente a famosa empresa indiana: os profissionais começaram a não aceitar mais ganhar 5, querem apenas 10. Se não há uma abundância tão grande de profissionais fica difícil demitir o cara e contratar outro ganhando metade, e podemos dizer que algumas das tradicionais empresas enfrentam ou enfrentaram sérias crises por isso. No fundo quem sofre é o governo, porque cai a qualidade dos serviços e não é tão fácil simplesmente contratar outra empresa com profissionais de mais qualidade para o lugar. A velha prática do “chicote na mão” do empresário acaba falhando por uma deficiência na educação do país. Curioso, não?

A verdadeira qualificação

Aí entramos no ponto que realmente era importante e que eu queria chegar com esse post: mesmo que existam empresas honestas e que trabalham com tecnologia (elas existem de verdade), as exigências são sempre por profissionais qualificados. Aí entram as famosas manchetes que não vou propagar dizendo que o Brasil sobre um “apagão de profissionais”. Mas será que o tal apagão existe mesmo?

Se fizermos uma busca simples sobre o que é qualificação para empresas entraremos na seara das certificações. O modelo era o mesmo da era industrial: um bom operário deveria saber manejar bem as máquinas de sua fábrica, pois certamente ele produziria mais. Por isso vemos uma avalanche de vagas apra programadores Java certificados e Gerentes de Projeto certificados.

Aí está o ponto em que entra a minha discordância. As empresas de tecnologia têm uma tendência muito forte de manter as práticas industriais, e querer profissionais que cheguem na empresa já sabendo trabalhar. Outro dia recebi uma consulta para uma oportunidade de trabalho para manutenção de mainframe numa plataforma específica para bancos. Contudo, a gerente foi enfática nas exigências:

Não adianta ser alguém que só conhece por conhecer. Precisa ser alguém que já tenha trabalhado no mesmo ambiente e saiba lidar com situações de manutenção do cotidiano do sistema operacional X.

Fiquei pensando que a vaga era realmente muito boa. Uma pena eu nunca ter trabalhado num ambiente de grande porte tal qual o exigido para a vaga. Mas quem teria trabalhado em tal ambiente? Somente quem já esteve exatamente no mesmo lugar, pois a exigência era tão específica que somente poderia atender a vaga quem trabalhasse lá. Afinal, que Universidade ou até mesmo curso técnico poderia simular um ambiente específico de um banco, mas não de qualquer banco, aquele ambiente daquele banco?

Abro então os espaços de procura por mão-de-obra e vejo consultas similares: conhecimento avançado na ferramenta X, domínio da metodologia Y, certificação Z. Cada vez mais a demanda por profissionais qualificados é tão específica que somente trabalhando naquele mesmo ambiente é possível atendê-la. E se um dia você sofrer o já famoso corte que conhecemos, não poderá necessariamente utilizar o conhecimento em outro lugar, pois as ferramentas das outras empresas podem ser outras.

Não vale nem a pena citar linguagens de programação. Se jogarmos uma pedra para cima, quando cair no chão vai aceitar alguém que programa em Java. Isso quer dizer que “Java é meu pastor e nada me faltará”? Conheço pelo menos umas 5 oportunidades boas para desenvolvimento onde conhecer Java só atrapalha. E certamente a onda vai passar e vai aparecer outra linguagem igualmente dominante (Python é a nova onda). E o que acontece com o profissional Master Java Programator?

As empresas cada vez menos avaliam pessoas e cada vez mais analisam papéis. Essa é uma questão que me preocupa, pois os melhores profissionais com quem já tive o prazer de trabalhar eram aqueles que tinham boa base genérica. Sem mencionar que os melhores que eu conheço hoje não têm curso superior. Minha amiga que trabalha em um departamento de RH explica que aumentar a exigência diminui a quantidade de postulantes à vaga, e facilita a análise dos currículos. Ok, mas será que para a sua empresa tal metodologia está atendendo? É comum a empresa abrir com uma vaga e ir baixando as exigências conforme vai ficando difícil de achar o profissional, mas no meio do caminho quase sempre aparece um que não é  muito bom, mas pode ser bom o bastante. Mas será ele o melhor para aquela vaga?

Normalmente existem sim bons profissionais para as vagas, mas os filtros gerados pelo processo de seleção eliminam a maior parte dos bons e mantêm os fãs de cursinho de capacitação. Trabalho com uma tecnologia nada popular e sempre que precisei contratar alguém consegui, ainda que com alguma dificuldade. Os filtros que coloco normalmente são genéricos, pois uma realidade é quase imutável: o verdadeiro treinamento é aquele que acontece no local de trabalho.

A reflexão que deve ficar é: qual é a qualificação de verdade? E como fazer para chegar ao profissional que a tenha?

Só para adicionar ao debate, se perguntar a qualquer gerente quais as características mais importantes de um bom funcionário, sem dúvida a maior parte delas estará relacionada com suas capacidades pessoais, não necessariamente capacitações técnicas.

Quando teremos educação?

23/05/2011

Mais uma vez somos confrontados com a dura realidade da educação em nosso país. Talvez, pela força da Internet, tenha sido o momento em que a realidade que todos conhecemos tenha se espalhado mais rapidamente pelo Brasil. O estranho é que, para muita gente, não se deve falar sobre o assunto porque educação ruim não é mais notícia. Assista então ao depoimento da Professora Amanda:

Sinceramente, adorei o começo da fala dela:

Como todos aqui gostam de apresentar muitos números, vou começar apresentando o meu, composta de apenas três algarismos: 9 – 3 – 0. Novecentos e trinta reais.

É deprimente de verdade imaginar que um professor no Brasil ganhe R$ 930,00. Contudo, o mais deprimente (aliás, esse é o motivo pelo qual escrevo) é ver que ninguém se indigna com isso! O salário do professor é uma miséria, a escola está caindo aos pedaços e ninguém tem a capacidade de se indignar.

Analisando a sociedade brasileira entendo um pouco as razões pelas quais nada acontece. A maior parte dos pais, muitos da classe alta inclusive, entendem que educação é problema da escola. Não é muito incomum ver aqueles que deixam seus filhos na escola e voltam no final do dia para buscá-los, sem ter o menor interesse com o que acontece com ele lá dentro. Quando acontece algo que não deveria acontecer, como crianças que se machucam porque estavam brincando no parque da escola, aí aparece a indignação.

Já disse aqui que a sociedade brasileira não dá a mínima pra política, da mesma forma que não dá a mínima pra educação. Também disse que não tinha motivos para comemorar a vitória da presidente Dilma, mesmo tendo torcido e votado nela, porque sabia que nada ia mudar. O problema é o mesmo: educação não é prioridade no Brasil, nem nunca foi. Aliás, alguém me explica uma coisa que eu nunca entendi: como pode um Técnico Judiciário, cargo de nível médio, ganhar em torno R$ 5.000,00 no DF e um professor ganha mais ou menos a metade? Alguém me explica essa lógica?

Para finalizar, deixo aqui um relatório da própria Globo: como pode um Estado que tem escolas cujos brinquedos machucam os alunos gastar R$ 671 milhões num estádio de futebol para 70.000 pessoas? Deve ser porque temos os grandes Gama (que já tem seu estádio) e Brasiliense (também tem seu estádio) para lotá-lo após o evento.

Obs.: Já ia me esquecendo: parabéns ao Faustão pela excelente entrevista. Não dá pra embutir no blog, mas o vídeo pode ser acessado nesse endereço.

#DezPorCentodoPIBJá

A queda da PSN e o que aprendemos com isso

05/05/2011

O assunto que está bombando para o público Nerd de plantão nos últimos dias é, sem dúvida, a invasão e consequente queda da PSN. Já há muita gente falando sobre o assunto e suas consequências – incluindo muita gente mais qualificada que eu – e não pretendia meter meu pitaco no tema. Contudo, achei que seria preciso me manifestar ao ler a carta de esclarecimentos enviada pela Sony ao Congresso Americano. Se você ainda não leu, recomendo fortemente a leitura. É bastante esclarecedor. Está escaneada, então você precisa ir navegando pelas próximas fotos.

A primeira coisa que me chama a atenção na carta é uma clara tentativa da Sony de imputar a responsabilidade do ataque a alguém, mais precisamente ao grupo de hackers Anonymous que está quase virando uma “cyber celebridade”. Prestem atenção em um dos trechos da carta escritos pela Sony:

When Sony Online Entertainment discovered this past Sunday afternoon that data from its servers had been stolen, it has also discovered that the intruders planted a file on one of these servers named “Anonymous” with the words “We Are Legion”. Just weeks before, several Sony companies had been the target of a large-scale, coordinated denial of service attack by the group called Anonymous.

Não vou me alongar muito na explicação, mas basicamente eles relacionam o ataque sofrido pelo grupo Anonymous à invasão da PSN através de um único arquivo plantado em um dos servidores. Em outro trecho eles alegam que um dos motivos da invasão foi o fato de os Engenheiros da empresa estarem ocupados defendendo-se do ataque DDoS, e acabou gerando uma brecha para a mega invasão na PSN.

Obviamente trata-se de um factóide (plantado) para tentar desviar o foco da falta de competência e seriedade da empresa com a sua infra-estrutura tecnológica para um ataque terrorista, coisa que os americanos adoram. Não moro lá para saber se o factóide funcionou, mas minha impressão é que não adiantou muito. As pessoas que têm capacidade para se pronunciar sobre o assunto sabem tratar-se de um absurdo tão grande o que foi dito que sequer vale a pena ser comentado. Outro ponto é que o próximo inimigo público número 1 (agora que o Osama morreu) pode vir a ser o grupo Anonymous. Meu amigo anarquista Fausto ficaria feliz de ver como um grupo anárquico por natureza está conseguindo pelo menos atrair para si a atenção de tanta gente. Sua própria existência explicita um problema muito grave para as autoridades mundiais, principalmente dos Estados Unidos: estamos falando de algo que eles não podem controlar nem mesmo combater. Pode ser que a guerra se torne mais forte nos próximos anos, e acredito que dentro de cinco anos as ações do grupo sairão do “submundo” da Internet para ganhar as páginas dos principais jornais mundiais.

Mas o objetivo aqui não é tratar da guerrilha digital, e sim do ataque à PSN. O fato de imputar responsabilidade aos outros significa que o presidente da empresa está convencido de que o ataque não poderia ter sido evitado. Preste atenção quando o Presidente diz que os Engenheiros estavam ocupados trabalhando na contenção do ataque DDoS. Imagine a seguinte figura: um guardinha com o crachá de Engenheiro na porta da sala de servidores tentando impedir que o ataque DDoS entre. Enquanto isso, chega um outro ataque pelas suas costas (que ele não pôde ver, porque estava às suas costas) que acaba entrando sem ele perceber e rouba os dados do usuário.

A cena serve para ilustrar porque um ataque à PSN teve tantas consequências desastrosas para a empresa. A afirmação do Presidente de que os Engenheiros estavam “ocupados” beira o ridículo, porque quem faz o trabalho de segurança são os equipamentos e softwares instalados para fazê-lo, e não as pessoas. Independente do que os técnicos estavam fazendo, a estrutura de segurança DEVERIA estar montada e funcionar sob qualquer circunstância. Será que as pessoas imaginam que segurança na Internet é alguém olhando a tela do computador para saber se tudo está indo bem? Simplesmente patético.

Normalmente ataques de segurança são detectados por mecanismos desenvolvidos especificamente para isso. Meu professor costumava dizer que não existe Segurança da Informação, que apenas podemos tratar Segurança na Informática, ainda assim com restrições. Se estiver interessado dê uma olhada em seu Portal sobre Segurança Computacional com vários artigos sobre o assunto. De fato, não existe nenhum sistema 100% seguro, e como costumamos aprender em minha área, shit happens. Para se ter um ambiente realmente seguro, deve-se partir do princípio que por maior que seja a barreira, ela certamente poderá ser quebrada, e nesse momento é importante ter mecanismos que tenham a capacidade de informar quando esse tipo de coisa acontece.

Para ilustrar o que estou querendo dizer, comparemos a invasão da PSN ao caso da invasão no Google. Também se tratou de um ataque altamente sofisticado, e mesmo não dispondo de mais informações sobre o ataque à PSN, dá pra imaginar que foi significativamente pior. Sim, houve falhas de segurança e informações dos usuários foram acessadas, mas não houve um comprometimento tão grande capaz de obrigar a derrubada do GMail por exemplo. Por que isso acontece? Claro que somente quem trabalha nas duas empresas poderá dizer com certeza, mas não é exagero dizer que o Google está mais preparado para lidar com o fato. De maneira resumida, a política de segurança parte do princípio que uma invasão à rede deles é somente uma invasão à uma das redes, que não contém 100% das informações. É praticamente impossível – de novo, pelo que eu sei – comprometer 100% dos usuários de GMail sem que eles percebam.

Acredito que o grande problema da Sony foi não ter levado a sério, como muitas empresas, a área de tecnologia da companhia. A primeira atitude foi chamar uma companhia de segurança externa, o que deixa indícios claros de que a equipe de segurança interna simplesmente não é suficiente. O principal objetivo desse post é levar a uma reflexão: qual é o grau de seriedade que sua empresa dá a área de tecnologia da informação? A maior parte dos ambientes que eu conheço encaram TI como custo, e cortar custos é sempre fácil (não é mesmo Telefônica Sppedy fail?) além de agradar aos acionistas da companhia. Afinal, todos querem lucro. Mas será que o aumento dos lucros compensa um episódio como esse da PSN?

Conheço enormes datacenters que são mantidos funcionando por duas ou três pessoas. Existe o caso de um muito conhecido que é mantido por apenas uma pessoa, e os outros funcionários servem apenas de suporte à ele. Há ainda o caso de uma das maiores empresas brasileiras onde todos os estagiários possuem senha de root de todas as máquinas. Isso é sustentável? Será que sua empresa não está exposta a problemas como os da PSN?

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Meu primeiro jogo na Bundesliga

11/04/2011

Hamburg StadiumAproveitando a oportunidade de uma viagem de trabalho à Alemanha decidi realizar o sonho de assistir um jogo da Bundesliga in loco. Como sei que há muitas pessoas querendo saber como foi decidi escrever um relato completo, principalmente pra comparar com o que encontramos no Brasil. Assim, algumas observações antes de começar o relato:

  1. Não sou jornalista, então estou expondo somente minhas impressões como brasileiro e torcedor;
  2. Não vou analisar tática e resultado, pois certamente tem gente melhor que eu pra isso;
  3. São minhas impressões. Se você tem alguma opinião diferente, compartilhe através da caixa de comentários.

O jogo escolhido foi muita sorte, pois bateria justamente com o período que estaria no país: Hamburger X Borussia Dortmund. Dificilmente poderia haver jogo melhor (talvez Bayern X Dortmund) porque o Dortmund é o líder do campeonato, o Hamburgo tem um bom time (inclusive com brasileiro na equipe) e o estádio está entre os melhores da Alemanha. Contudo, haveria um problema: como conseguir ingresso para uma partida tão importante?

O Ingresso

Sou do tipo de pessoa que planeja cada detalhe das coisas antecipadamente. Assim, minha primeira preocupação foi, obviamente, com o ingresso. Eu tinha basicamente três opções: pedir para o meu amigo na Alemanha comprar pra mim, tentar achar um ingresso na Internet ou ir para a porta do estádio procurar no “mercado negro”.

Como a pessoa prevenida que sou, obviamente a primeira ideia foi entrar em contato com meu amigo que mora na cidade e pedir para ele comprar pra mim. Ele me disse que os ingressos normalmente acabam de 1-3 meses antes do jogo, e algumas vezes é possível haver ingressos de pessoas que devolveram ao clube porque devolveram ao clube. Ele é um torcedor fanático, e também gostaria de comprar para ir, mas aparentemente nas lojas oficiais não seria mais possível. Ele me aconselhou o e-bay, onde era possível encontrar ingressos por 80 EUR, mas devido ao tempo (decidi comprar na Segunda e o jogo era no Sábado) achei que o e-bay não era uma opção.

Procurando na Internet conheci o site Viagogo que parecia ser bastante confiável. Fiquei um pouco receoso devido ao pouco tempo, mas fui atraído pela garantia de que os ingressos chegariam a tempo. Não sabia se o site era confiável, mas vi que eles vendem oficialmente os ingressos de alguns times da Inglaterra e até vi propagandas em jogos do campeonato inglês. Decidi então que valeria a pena arriscar e tentar comprar um ticket.

A interface do site é incrivelmente boa. É possível buscar os eventos por time e setor onde se quer sentar, e eles têm mapas completos dos estádios. Foi muito fácil escolher e comprar o ingresso, o que foi compensado com um preço significativamente acima do normal. Paguei 59 EUR num ingresso de 36 EUR, mais 21 EUR de taxa de entrega e conveniência. A vantagem é que eles garantiam a entrega em tempo, então decidi arriscar assim mesmo, e devo dizer que não me arrependi.

Ingresso comprado

O serviço deles foi incrivelmente rápido! Comprei o ingresso dia 04/04, e ainda no dia 05/04 eles tentaram me entregar em Hamburgo onde eu estava trabalhando. Como eu forneci o endereço errado (acontece quando não se conhece o país) eles me entregaram somente na Sexta, mas foi por escolha minha e o agendamento da entrega foi rigorosamente obedecido. Fiquei muito satisfeito com o serviço!

De Hamburgo-2011

Indo ao estádio

No dia do jogo ainda não sabia se iria pegar o transporte público ou um taxi. Já estava quase decidido pelo Taxi, já que meu hotel era muito próximo ao estádio, quando meu amigo me lembrou de um detalhe: com o ingresso do jogo, eu posso pegar qualquer transporte público. Sim, isso mesmo, qualquer transporte público! O sistema de transporte aqui é simplesmente espetacular para quem não conhece, e até um pouco assustador. Não existem catracas nos metrôs e trens; simplesmente uma máquina que vende tickets. Você seleciona o percurso que vai fazer e compra o bilhete, mas isso acontece quando já estamos dentro do trem. Pode acontecer de alguém checar se você realmente comprou, e no caso de não haver comprado você é obrigado a pagar uma grande multa. Contudo, fiquei na Alemanha por 8 dias e nunca vi nenhum tipo de fiscalização. Nem preciso dizer que seria desnecessário, pois todos compram os tickets. A maior parte tem passes mensais que permitem comprar todos os tipos de transporte.

Vale ressaltar que o sistema é um pouco complexo, e até mesmo as pessoas que moravam na cidade tinham dificuldade em me dizer qual era o ticket certo para comprar. A regra geral é que todos têm passes mensais, mas não vale para quem vai ficar pouco tempo na cidade. É muito difícil entender as várias opções, mesmo com o menu em inglês.

Observações feitas, decidi sair do trabalho que fica no centro por volta ds 14h00 para ir ao jogo. Seriam aproximadamente 6 estações de trem até o estádio, o que deveria levar em torno de 20 minutos. Na hora que estava indo, meu amigo decidiu ir comigo e tentar comprar no mercado negro, então acabamos indo de carro. Foi realmente rápido: percorremos uma distância de aproximamente 8Km em menos de 30min e por volta das 14h30 estávamos na porta do estacionamento. Ele pagou 4 EUR para estacionar e levamos mais uns 10 min para chegar até a vaga, estacionamos e andamos uns 5min até a porta do estádio.

Sou acostumado a frequentar estádios brasileiros, então não preciso nem dizer que não há comparação em facilidade para estacionar. Exceção feita ao antigo Parque Antártica, que tinha estacionamento fácil no shopping ao lado e uma grande avenida pra chegar, nunca fui tão rápido ao estádio.

O estádio

Devo dizer que, como fã de esportes, meu coração bateu bem forte quando cheguei na porta do estádio. Na verdade não é um estádio: é um complexo dentro de um parque que contém um ginásio para handball e hóquei no gelo, uma casa de shows para aproximadamente 30.000 pessoas e o estádio para 58.000 torcedores (nem todos sentados, importante observar). Fiz um pequeno vídeo da chegada que mostra a entrada do complexo.

A entrada estava bastante calma, mesmo faltando menos de uma hora para o início do jogo. É até um pouco engraçado, porque havia um carro de som com música e um caminhão vendendo cerveja, e se fosse no Brasil seria algo muito próximo com um trio elétrico. Como era na Alemanha a música estava tocando e as pessoas estavam… bebendo. Sim, uma música na maior altura e ninguém dançando, mas acho que não era o jeito deles. Claro que tirei fotos minhas na entrada e da “festa”.

De Hamburgo-2011
De Hamburgo-2011

Meu amigo ainda tinha a tarefa de ir atrás do ingresso. Imaginei que, por ser na Europa, a venda de ingressos seria reprimida e haveria algum esquema especial que somente quem sabe onde compra pode comprar. O que ele fez foi comprar uma cerveja (4 EUR cada) e esperar na porta alguém que aparentasse estar vendendo. Dada a situação me senti “em casa” e eu mesmo identifiquei o indivíduo que estava vendendo bem “à brasileira”. Ele acabou comprando um ingresso bem melhor do que o meu, significativamente mais perto do campo e pagou 80 EUR. Deu uma certa inveja, mas pensei que foi melhor ter comprado pela Internet e ter a certeza de entrar do que viver a incerteza de não conseguir. Sei lá quando vou voltar para Alemanha! Não foi a coisa mais difícil do mundo comprar, mas levamos uns bons 20min esperando.

Ingresso na mão hora de ir para o meu lugar. Tivemos que nos separar (que chatice não podermos ver o jogo juntos!) e curiosamente meu ingresso era no meio da torcida visitante. Fiquei um pouco assustado, porque no Brasil estar com a torcida visitante pode ser problema, mas entrei no clima e não me preocupei com isso. Mais um vídeo que relata minhas impressões.

O jogo

A partir daí comecei a sentir realmente a emoção de estar no estádio. Enfrentei uma fila bem rápida para entrar (uns 5min) e 6 lances de escada até chegar ao meu lugar (não era nem de longe o melhor lugar do estádio). Quanto mais eu subia mais tinha a sensação que tinha que aproveitar outra coisa, pois o jogo não ia dar pra ver, mas me surpreendi assim que olhei o estádio. A sensação de chegar ao estádio em qualquer jogo é indescritível (a primeira vez que estive no Maracanã é incomparável) e nesse caso foi também uma surpresa. Eu estava quase no topo do estádio, pois havia somente mais umas 10 filas pra cima, e a minha visão do gramado era simplesmente perfeita! Eu conseguia ver perfeitamente o jogo, e ainda havia um dos dois enormes telões em minha direção para que eu pudesse ver o que não desse com os olhos.

Imaginei que seria o esperado na Europa, pois todo o mundo falou muito bem na Copa do Mundo, mas a maior surpresa ainda estava por vir. O próximo vídeo mostra a minha maior surpresa no estádio.

Sim, por alguns minutos me senti no Maracanã. É incrível como a torcida canta! E não é só cantar, eles vibram o tempo inteiro e sentem cada lance do jogo. A sensação é realmente incrível! Mas pude ver a importância grande que tem a torcida organizada: na Alemanha todos os estádios têm espaço para torcedores em pé, normalmente próximo do campo. É lá que ficam as torcidas organizadas, que são realmente organizadas. Tem dois caras puxando o tempo todo algum canto, e não deixando os outros pararem. Claro que todos os torcedores sabem os cantos, mesmo os que não estão em pé com os organizados na parte separada para eles. Eles cantam o tempo inteiro, e a torcida organizada funciona como regente da orquestra. A atmosfera é realmente sensacional!

De Hamburgo-2011

O melhor estava por vir no final do jogo: o Dortmund empatou nos acréscimos, e os fãs ficaram realmente ensandecidos! Cerveja voando (tem muita gente que não gosta, eu inclusive), gente chorando, outros gritando, uma verdadeira catarse. Muito similar ao que já presenciei em estádios no Brasil. O mais incrível é o respeito que os jogadores têm pela torcida e vice-versa: ao final o técnico veio agradecer e foi ovacionado, junto com o capitão do time e alguns outros jogadores. Tentei filmar, mas minha câmera deu pau e fiquei sem essa.

Aliás, parece que na Alemanha alguns jogadores são realmente muito importantes. Eles parecem ser a “cara da franquia” e servem até mesmo de propaganda para os parceiros. Meu amigo me contou que, para quem vai à área VIP, há pelo menos 3 jogadores que vão até falar com os torcedores mais importantes e o capitão pessoalmente agradece todos os patrocinadores. É um conceito totalmente diferente de jogar do time.

Não esperei a festa até o final talvez por um pouco do medo brasileiro que ainda sinto. Nunca espero o jogo acabar no Brasil, pois normalmente é o período mais perigoso. Desci em menos de 5 min e mais ou menos 10min depois estava de volta à frente do estádio. Foi tudo muito rápido e organizado. Cabe ressaltar que na parte externa no estádio há um verdadeiro shopping, com várias coisas para comprar e comer (até mesmo automóveis Audi), tudo fornecido pelos patrocinadores do clube. Estou certo de que eles levam algum por isso.

Ao final, a pior parte: levamos quase 40min somente para sair do estacionamento do estádio, pois o trânsito estava completamente parado. Mais uma vez me senti no Brasil, mas de um jeito ruim.

Conclusão

Não me considero inexperiente, pois já fui em vários estádios do Brasil em jogos de diferentes tamanhos, e devo dizer que não fiquei tão impressionado, por uma série de razões. Primeiro porque há algum tempo não vou ao estádio, e às vezes me esqueço como os jogos são simples. São somente 11 contra 11 em campo, e a super produção que a televisão faz principalmente nos jogos europeus faz com que pensemos que a coisa é maior do que ela é. Mas não é: o jogo é simplesmente o mesmo.

Depois, porque estive num dos melhores estádios da Alemanha (talvez entre os 3 ou 4 melhores) e não fiquei tão impressionado. Eles realmente têm mais segurança, mais conforto e o deslocamento para o jogo é infinitamente mais fácil. Contudo, quando vemos a televisão parece que nós estamos em outro planeta, quando na verdade a coisa é muito simples: existe policiamento em abundância (em todos os pontos da cidade) e os bandidos são eliminados dos campos. De resto, é puro marketing e inteligência de negócios, pois os estádios não são feitos de ouro ou todo o mundo tem elevador para o seu lugar. É uma escada, como em muitos estádios brasileiros, o banheiro é sujo (precisei de um) tanto quanto no Brasil, mas as coisas não estão quebradas (mais uma vez a ausência de bandidos nos estádios ajuda). Os assentos talvez sejam a maior diferença, pois são espaçosos e as pessoas respeitam o seu lugar. De resto, não há nada impossível de ser feito.

Vale uma observação que esqueci: houve um pequena confusão na minha frente porque dois caras sentaram nos lugares que não eram os deles, e a pessoa chegou e pediu para eles saírem. Eram obviamente jovens baderneiros, e em alguns momentos achei que fosse sair alguma briga, pois eles estavam realmente discutindo. O estranho é que não vi ninguém intervir, e talvez se fosse sangue latino eles tivessem chegado às vias de fato (quem conhece os italianos e os brasileiros sabe o que digo), mas depois de muita discussão os jovens baderneiros saíram. Somente após a confusão apareceu uma senhora que parecia ser a fiscal do estádio. Não entendi porque ela não interviu antes.

A experiência foi única, mas a minha conclusão é que à vezes nos colocamos muito pra baixo e achamos o que os outros fazem melhor do que realmente é. Temos totais condições de fazer uma Copa no Brasil com os estádio que temos, bastando apenas algumas melhorias. Pelo menos, na minha opinião de torcedor.

Quando as máscaras caem

23/02/2011

Não vou citar uma fonte específica pois são muitas as que trataram do tema, mas uma pesquisa no Google pode trazer mais revelações. Sim, o tema a ser finalmente abordado é a crise na comunidade BrOffice, que já era conhecida por muitos e ficou escancarada nos últimos dias. Os motivos são vários, mas estão diretamente relacionados à definição de comunidade. Os líderes da “comunidade” de Software Livre no Brasil conhecem bem o tema, pois tiveram que lidar com o assunto à medida que seus projetos foram crescendo. Contudo, a questão central ainda permanece de difícil definição: afinal, o que é a tal comunidade? Será que ela existe mesmo?

Quem já me viu falando por aí sabe que tenho posições muito pragmáticas sobre o assunto, e vejo meus temores todos justificados quando o caso do BrOffice vem à tona. Uma comunidade de Software Livre é, por vocação, uma comunidade de prática para um objeto de conhecimento específico, onde a maior riqueza é o conhecimento produzido por muitas mãos. Não há dúvidas de que uma discussão em um fórum, uma documentação num Wiki, tudo isso tem um valor muito grande até mesmo em termos financeiros, muitas vezes contabilizados nos ativos intangíveis das empresas e instituições. A questão óbvia que surge quando toda essa riqueza está sendo gerada em um ambiente virtual é: quem vai se apropriar de tudo isso?

Já escrevi e falei muito sobre o tema, então se quiser saber mais dê uma olhada na seção de Palestras e Publicações aqui do blog. Se estamos colaborando em um ambiente virtual existe uma clara vantagem para quem é o dono do ambiente. Sempre existe a sensação de que a “comunidade” não pertence a ninguém, que é uma coisa democrática de domínio de todos, mas não prática não é isso que acontece. Um dos maiores exemplos que posso citar é o Portal Br-Linux, que pertence ao já conhecido Augusto Campos. As caixas de comentários das notícias publicadas no blog possuem quase que uma aura mística, e ao postarmos alguma coisa por lá temos a sensação de estarmos sendo ouvidos pela sociedade. Posso confessar que eu mesmo já tive essa sensação. Contudo, ao perceber a proliferação de propagandas que tornavam o site cada vez menos agradável em meu ponto de vista, percebi o óbvio: o Br-Linux nada mais é que um Portal de uma pessoa que ganha muito bem (obrigado) para mantê-lo funcionando. Qual o problema com isso? Nenhum, em absoluto. É uma maneira justa de ganhar dinheiro e se as pessoas continuam acessando é porque seu conteúdo continua sendo interessante.

O mesmo problema passa ao tentarmos dar um caráter tangível a algo que é intangível por natureza. A comunidade é uma aglutinação de pessoas que têm um objetivo comum (no caso o software), mas para passar a ser reconhecida pelo mundo real precisa de algo que a torne real para as instituições constituídas na sociedade. É o caso dos organizadores do FISL, que fundaram a ONG PSL-Brasil para organizar o evento e acabou representando a materialização da comunidade nacional de Software Livre que existia de maneira intangível e informal.

Chegamos agora ao ponto principal: no mundo capitalista e talvez até mesmo no socialista, nada se mantém sem dinheiro, e até mesmo comunidades como as citadas acima precisam de recursos para continuar existindo. Afinal, até mesmo para manter uma lista de discussão é necessário pagar um provedor que mantenha a estrutura tecnológica funcionando, para dizer o mínimo. E o perigo reside no caráter sombrio da alma humana: sempre que há dinheiro envolvido, serão formados os grupos de quem tem mais  e quem tem menos. Quando um grupo financeiramente dominante age sobre um ativo intangível trazido à tangibilidade através de uma OSCIP, o que acontece?

Já cansei de dar esse exemplo, mas acho conveniente repeti-lo porque pode ser que se encaixe no caso BrOffice: a Microsoft é uma das grandes contribuidoras da Apache Foundation. Vamos supor que em alguns (poucos) anos a sua contribuição dentro da fundação seja tão grande que ela domine, digamos, 90% das receitas da fundação. O que pode acontecer? Reflita um pouco…

Para ajudar na reflexão, dê uma olhada nessa notícia de 2007, já velha. Sim, no ano de 2007 o Google se tornou a marca mais valiosa do mundo. E o que o Software Livre tem a ver com isso? A resposta não é óbvia, mas é simples. Em algumas empresas, somente a marca chega a representar quase 90% de seu valor de mercado. Se trouxermos para o software Livre, talvez exista muita gente que não sabe o que é Linux mas conhece o Android. De fato, somente pelo fato de embutir a marca no produto o valor do mesmo pode ser radicalmente alterado. Se o Android tivesse seu nome alterado para robô por exemplo, mesmo que ainda fosse o mesmo software, certamente perderia grande parte do valor. Agora coloque-se no hipotético lugar da Microsoft: tenho 90% de uma OSCIP que detém uma marca que vale alguns bilhões de dólares. O que posso fazer? Começar a cobrar pelo uso da marca.

No caso de suites de escritório, que envolvem usuários em maioria leigos, a maior parte deles já não sabe o que é o LibreOffice, que substituiu o OpenOffice justamente porque a Oracle teve a ideia que acabei de exemplificar, imagine se mudar de novo? No Brasil, que provavelmente tem a maior base instalada de OpenOffice no mundo sob o nome de BrOffice, qual seria o valor da marca BrOffice?

Quando começamos com o Portal do Software Público muitas pessoas questionaram várias das atitudes que tomamos, tais como exigir o cadastro, burocratizar a liberação do software, utilizar licença em Português, etc. Todavia, desde o começo tínhamos a preocupação de criar um ambiente realmente neutro para compartilhamento de software, onde cenas como as presenciadas no caso do BrOffice se tornassem mais difíceis de acontecer. Claro, como o grande amigo Anahuac gosta de me lembrar, ainda dependemos da mão política e pesada do Estado, e tudo pode mudar com uma mudança nas diretrizes de Governo. Todavia me parece que temos mais argumentos de pressão popular para lidar com as intempéries de governos do que com o poder financeiro da iniciativa privada. Com a criação da licença pública de marca e o modelo de institucionalização estamos prestes a criar no Brasil aquele que será muito provavelmente o primeiro ambiente neutro para compartilhamento de software no mundo. E casos como os do OpenOffice e agora BrOffice se tornarão cada vez mais difíceis.

Para finalizar é importante ressaltar o grande trabalho que vem sendo realizado pelo amigo Claudio Filho. Ele vem lutando praticamente sozinho há muitos anos, e agora que parecia que as coisas estavam caminhando para o ponto de a OSCIP realmente apoiar a comunidade até com a contratação de desenvolvedores, sofre um pesado golpe da organização que ajudou a fundar. Estamos protegidos pelo menos por algum tempo, já que sei que algumas das marcas e patentes importantes para a comunidade estão registradas em seu nome. Agora que as máscaras da OSCIP parecem ter caído foi bom que a transferência ainda não tenha sido feita. Tenho certeza que está em melhores mãos.

O caso serve como um alerta para todos os que se pensam como líderes de comunidade: em algum momento você vai precisar das estruturas formais, e o jogo se tornará mais baixo e mais pesado com o tempo. É importante saber se estará pronto para lidar com as várias armadilhas que poderão ser jogadas sobre você.

A Sociedade Brasileira e o Mundo de Faz de Contas

21/02/2011

Fujo um pouco dos assuntos que vêm dominado a atividade do blog nos últimos tempos para realizar uma reflexão (mais uma) sobre nossos valores morais e sociais. Recebi pelo twitter de diversas fontes diferentes a seguinte notícia: “Os últimos suspiros do maior templo de luxo do Brasil“. A maior parte das manifestações que recebi diziam respeito à celebração do fim da Daslu, pois representa a loja preferida dos mauricinhos e patricinhas altamente endinheirados da elite brasileira. Elite sobretudo paulista, mas também brasileira, pois há relatos de gente que viajava até lá somente para fazer compras da última coleção.

Não sou consumidor de artigos de luxo, primeiro por não ter “bala na agulha”; segundo, por não ser tão intrinsecamente ligado à cultura consumista de marcas, que talvez tenha sua expressão máxima no antigo mas ainda popular seriado Sex and the City. Por tais motivos, um comentário postado na notícia me chamou fortemente a atenção:

Chega até ser interessante que muitos dos comentários abaixo possuem uma crênça que outros que se dedicam, que tornam-se eficazes, eficiêntes e produtivos em suas carreiras profissionais, pessoas que monstram ter habilidade e competência p/ ganhar dinheiro e ganham muito dinheiro e possuem a atitude de manter os frutos de seu trabalho e gastá-lo como queiram, são considerados os inimigos da sociedade com uma atitude imprática. Uma gula egoista por lucro, em nosso pais, ja é considerado uma coisa do passado. Agora se torna concebível que os interesses da sociedade as um todo, deve sempre ser colocado em primeiro lugar em qquer que seja o negócio sendo conduzido. Temos que pensar nos menos afortunados. Aqueles que nunca se esforçaram p/ nada, que vivem suas vidas na dependência do governo; Aqueles indolêntes que se beneficiam do nosso trabalho, sem trabalhar. Esses sim, são os tipos de seres humanos mais deprivados, esses são os homens sem um propósito.

O comentário foi postado por um usuário chamado Edivaldo Camargo, e contém uma síntese de todos os meus sentimentos em relação ao tema. De fato, para a maior parte das pessoas que moram no Brasil, parece um absurdo imaginar que tenha gente com tanto dinheiro para gastar com objetos tão pouco importantes. Vale ressaltar, contudo, que o maior problema na maioria dos casos não é o fato de o objeto ser absurdamente caro, mas sim de alguém estar “esbanjando” dinheiro com isso. O sentimento geral é de que a pessoa que está comprando algo assim está cometendo um crime. Afinal, tem tanta gente passando fome…

Um paralelo do observado acima pode ser traçado com o vídeo que mostra o procedimento de revista de uma policial feminina em São Paulo. A policial ficou forçadamente desnuda em frente às câmeras da corregedoria que tentavam registrar o flagrante. Coloquei o link mesmo sabendo que em pouco tempo ele será retirado, então você terá que buscá-lo em fontes alternativas se quiser presenciar o fato. O registro dos comentários revelam a indignação com os corregedores, que submeteram a tal policial  – comprovadamente corrupta, vale ressaltar – a um constrangimento por muitos considerado absurdo. Afinal, ela recebeu “apenas” R$ 200,00 de propina e a força utilizada para retirar as provas dela foi “claramente” absurda.

Os dois episódios me entristecem bastante não pelos fatos em si, mas pela revelação clara dos valores morais que permeiam nossa sociedade, são travestidos pelos meios de comunicação e totalmente esquecidos em época de eleição. Se a policial feminina estivesse roubando uma mala com alguns milhares de dólares muita gente não consideraria o crime tão grave, apesar de muitos ainda acharem que a força utilizada foi desproporcional. Em nenhum momento se questiona o fato de um guardião da lei estar quebrando-a em benefício próprio, mas sim o fato de que uma pessoa não pode ser despida à força na frente de outras do sexo oposto. O crime aqui é um atentado à moral, e não a corrupção da agente, o que chega a ser curioso, uma vez que agentes públicos deveriam ter boa índole e reputação ilibada, já que são beneficiados com a fé pública.

Voltando ao caso Daslu, existe um ditado que ouvi certa vez muito adequado para definir nossos valores morais enquanto sociedade:

Se um americano vê uma pessoa muito rica, ele diz: “um dia serei igual a ele”. Um brasileiro, ao observar a mesma abastância, diz: “um dia ele será igual a mim”.

Não conseguimos admitir o fato de alguém possuir muito, mas muito dinheiro mesmo. Nos parece completamente errado que alguém possa ter tanto num país onde outros têm tão pouco. Contudo, ao invés de utilizarmos os exemplos como espelho, somos dotados de um desejo quase mórbido de que a pessoa perca tudo e seja “rebaixada” ao mesmo nível que todos nós. O sucesso, principalmente financeiro, de outras pessoas é errado, e nos divertimos com a possibilidade de algum dos que está no patamar superior perder tudo. Casos de derrocada financeira são acompanhados quase como uma novela, onde os vilões são os reconhecidamente ricos e abastados.

Sabemos que as causas para o fenômeno são muitas, e sempre que vejo algo do gênero me lembro daquele que talvez tenha sido o maior empreendedor da história do Brasil: Barão de Mauá. Ele ergueu um cabo subterrâneo de telecomunicações entre o Brasil e a Europa de graça somente para obter reconhecimento social, e ainda assim suas conquistas não são reconhecidas pelos livros de História. Pelo contrário, é como se ele não tivesse existido, pois como grande empreendedor chegou ao “absurdo” de ser mais rico que seu próprio país, sendo por isso perseguido até culminar com sua morte no ocaso.

Consideramos ser rico um comportamento moral errado, ao mesmo tempo em que consideramos errado aquele que prende o policial corrupto por seus “métodos violentos” que ferem gravemente a moral da sociedade brasileira.

Sinceramente, às vezes acho que vivemos num país de faz de conta, onde a maior parte de nós idealiza uma sociedade que não existe. O maior reflexo disso é a nossa legislação penal: a maior preocupação não é punir os bandidos, e sim garantir que ninguém seja “injustiçado”. A legislação anti-drogas foi alterada para que os usuários comuns não sejam presos, e sim os traficantes. Como? Agora há um mínimo para que o cara possa ser preso. Uma arma perfeita para os traficantes, que escondem as drogas em lugares públicos, andam somente com quantias permitidas pela lei e são presos e soltos diariamente. Se o policial encontra a droga escondida o traficante alega que não era dele, e acaba sendo absolvido pelo judiciário, pois a droga estava em área pública.

Ao mesmo tempo vemos a infinidade de recursos que paralisam a justiça brasileira. Se alguém é condenado a mais de 22 anos de prisão (posso estar errando aqui porque não sou advogado, mas a essência do que quero dizer está dentro da lei) ganha automaticamente direito a um novo julgamento, pois precisamos garantir que ele tenha todas as chances possíveis e imagináveis para uma democracia. Enquanto isso, os membros do judiciário trabalham seis horas por dia e um profissional de nível médio ganha mais de R$ 4.000,00 para ajudar nos trabalhos burocráticos. E a justiça é lenta. Certamente porque há trabalho demais. E os professores ganham em torno de R$ 1.000,00 para cuidar da educação no Brasil.

Será que um dia vamos acordar e perceber que o mundo não é tão cor de rosa quanto pinta nossa legislação? Será que vamos entender o verdadeiro conceito de moral e construir uma sociedade mais ética?

As ações no Rio me deram alguma esperança. Para o povo do Rio que mora nas favelas a realidade está à porta todos os dias, e quando a mão forte do Estado organizado chegou eles a abraçaram. Mas quantos mais terão que morrer para que entendamos como a nossa situação é grave? Não tenho dúvidas de que, se o Brasil fosse perto dos EUA, morreria muito mais gente do que acontece hoje no México.

O pior cego é aquele que não quer enxergar, e fracassado é aquele que se esconde atrás dos defeitos dos outros. Nunca esqueço de uma frase dita por um professor no segundo grau: “em terra de cego, quem tem um olho só é caolho do mesmo jeito”. Sim, enxerga mais que os outros, mas enxerga pouco. Adianta? Depende da ambição, e justamente aí mora o problema.

Pílula de pensamentos soltos e conectados, refletindo sobre de onde viemos e para onde vamos.

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