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A falsa escassez de mão de obra especializada em TIC

26/05/2011

Comecei o dia hoje assistindo a mais uma das muitas matérias sobre o tema no Bom Dia Brasil da Globo. O título é sempre o mesmo: sobram vagas e faltam profissionais qualificados. Como já trabalho há algum tempo na área e tenho o que considero uma boa visão sobre o assunto, matérias como essa me incomodam muito. Sei de muita gente que procura emprego e não acha após sair de uma empresa, mesmo tendo excelentes qualificações. Quando penso também nas vezes que precisei contratar alguém para vagas com um salário relativamente bom e tive alguma dificuldade acho que existe um pouco de verdade aí. Contudo, para podermos analisar o assunto precisamos fazer alguns recortes e analisar o problema de diferentes óticas:

  • Existem realmente mais vagas que profissionais habilitados? (lado da empresa)
  • Será que a remuneração é diretamente proporcional à exigência? (lado do empregado)
  • O que é qualificação de verdade? (lado das escolas e qualificação em geral)

A pujança da economia e a abundância de vagas

Começando a análise pelo começo (parece óbvio, mas nem sempre é assim) precisamos analisar se realmente faltam profissionais para as vagas necessárias. Se partirmos do princípio (errado) de que a formação se dá em Universidades, digamos que Brasília gere em torno de uns 400 profissionais de TIC por semestre, somando faculdades públicas e privadas (mesmo as de qualidade duvidosa). Seriam todos esses profissionais absolvidos pelo Mercado? Numa rápida busca no CEVIU e no Vagas por oportunidades em Brasília no dia de hoje, encontramos em torno de 300 vagas disponíveis. Se imaginarmos ao longo de um semestre, a conta é que sim, haveria oportunidade para todos e possivelmente sobraria.

O fato de sobrarem vagas de TIC é ressaltado pelo fato de muitas empresas trazerem profissionais também de outros estados. Vale lembrar que Brasília é um grande pólo econômico, talvez dos mais importantes do país, pelo fato de servir como referência para grande parte das regiões Nordeste e Centro-Oeste. Se pensarmos somente com esse ponto de vista, então seria sim correto afirmar que sobram vagas apra a área de TIC.

Por que então Brasília tem um dos índices de desemprego mais altos do Brasil? Sim, o índice aqui é altíssimo, historicamente acima de 10%, e ainda maior entre os jovens. Aí a coisa começa a ficar interessante…

Com um chicote na mão

Na lista de alunos na UnB frequentemente falamos sobre as empresas de informática de Brasília e suas práticas profissionais. As discussões ficaram mais acirradas com a entrada de grandes players mundiais (como uma certa empresa indiana) na área de informática. O modelo de negócios dominante, entre quase todas as empresas que se dizem de TIC, é terceirização de mão-de-obra para o governo. Ainda que seja mão-de-obra na área de informática, não faz muito sentido falar em mercado de TIC para essas empresas, mas o objetivo não é discutir tecnologia aqui.

A prática das empresas de terceirização de mão-de-obra é simples: receber do governo o máximo possível e pagar para os profissionais o mínimo possível. O equilíbrio financeiro de tais contratos dependem de um índice que calcula o custo do profissional em relação ao que a empresa recebe pelo posto de trabalho, que gira em torno de 2,5 vezes para dar lucro à empresa. Ou seja: ela te paga 5, mas rece do governo 12,5 pelo seu posto de trabalho.

O resultado é bastante óbvio: existe um limite que essas empresas podem pagar para o profissional, e não interessa muito se ele é bom ou ruim. Afinal, o contrato é feito com base na quantidade de pessoas, e pra quê pagar 10 pra um bom se eu posso contratar alguém razoável por 5? Claro que isso mudou com a IN 04/2009, pois agora os contratos devem ser feitos por produto. Mas a realidade é que nada mudou: os produtos são inventados e os profissionais continuam sendo contratados e pagos com a velha metodologia. Deixava todo o mundo feliz, ou pelo menos parecia que sim.

Mas aí aconteceu um fenômeno que muita gente não contava, principalmente a famosa empresa indiana: os profissionais começaram a não aceitar mais ganhar 5, querem apenas 10. Se não há uma abundância tão grande de profissionais fica difícil demitir o cara e contratar outro ganhando metade, e podemos dizer que algumas das tradicionais empresas enfrentam ou enfrentaram sérias crises por isso. No fundo quem sofre é o governo, porque cai a qualidade dos serviços e não é tão fácil simplesmente contratar outra empresa com profissionais de mais qualidade para o lugar. A velha prática do “chicote na mão” do empresário acaba falhando por uma deficiência na educação do país. Curioso, não?

A verdadeira qualificação

Aí entramos no ponto que realmente era importante e que eu queria chegar com esse post: mesmo que existam empresas honestas e que trabalham com tecnologia (elas existem de verdade), as exigências são sempre por profissionais qualificados. Aí entram as famosas manchetes que não vou propagar dizendo que o Brasil sobre um “apagão de profissionais”. Mas será que o tal apagão existe mesmo?

Se fizermos uma busca simples sobre o que é qualificação para empresas entraremos na seara das certificações. O modelo era o mesmo da era industrial: um bom operário deveria saber manejar bem as máquinas de sua fábrica, pois certamente ele produziria mais. Por isso vemos uma avalanche de vagas apra programadores Java certificados e Gerentes de Projeto certificados.

Aí está o ponto em que entra a minha discordância. As empresas de tecnologia têm uma tendência muito forte de manter as práticas industriais, e querer profissionais que cheguem na empresa já sabendo trabalhar. Outro dia recebi uma consulta para uma oportunidade de trabalho para manutenção de mainframe numa plataforma específica para bancos. Contudo, a gerente foi enfática nas exigências:

Não adianta ser alguém que só conhece por conhecer. Precisa ser alguém que já tenha trabalhado no mesmo ambiente e saiba lidar com situações de manutenção do cotidiano do sistema operacional X.

Fiquei pensando que a vaga era realmente muito boa. Uma pena eu nunca ter trabalhado num ambiente de grande porte tal qual o exigido para a vaga. Mas quem teria trabalhado em tal ambiente? Somente quem já esteve exatamente no mesmo lugar, pois a exigência era tão específica que somente poderia atender a vaga quem trabalhasse lá. Afinal, que Universidade ou até mesmo curso técnico poderia simular um ambiente específico de um banco, mas não de qualquer banco, aquele ambiente daquele banco?

Abro então os espaços de procura por mão-de-obra e vejo consultas similares: conhecimento avançado na ferramenta X, domínio da metodologia Y, certificação Z. Cada vez mais a demanda por profissionais qualificados é tão específica que somente trabalhando naquele mesmo ambiente é possível atendê-la. E se um dia você sofrer o já famoso corte que conhecemos, não poderá necessariamente utilizar o conhecimento em outro lugar, pois as ferramentas das outras empresas podem ser outras.

Não vale nem a pena citar linguagens de programação. Se jogarmos uma pedra para cima, quando cair no chão vai aceitar alguém que programa em Java. Isso quer dizer que “Java é meu pastor e nada me faltará”? Conheço pelo menos umas 5 oportunidades boas para desenvolvimento onde conhecer Java só atrapalha. E certamente a onda vai passar e vai aparecer outra linguagem igualmente dominante (Python é a nova onda). E o que acontece com o profissional Master Java Programator?

As empresas cada vez menos avaliam pessoas e cada vez mais analisam papéis. Essa é uma questão que me preocupa, pois os melhores profissionais com quem já tive o prazer de trabalhar eram aqueles que tinham boa base genérica. Sem mencionar que os melhores que eu conheço hoje não têm curso superior. Minha amiga que trabalha em um departamento de RH explica que aumentar a exigência diminui a quantidade de postulantes à vaga, e facilita a análise dos currículos. Ok, mas será que para a sua empresa tal metodologia está atendendo? É comum a empresa abrir com uma vaga e ir baixando as exigências conforme vai ficando difícil de achar o profissional, mas no meio do caminho quase sempre aparece um que não é  muito bom, mas pode ser bom o bastante. Mas será ele o melhor para aquela vaga?

Normalmente existem sim bons profissionais para as vagas, mas os filtros gerados pelo processo de seleção eliminam a maior parte dos bons e mantêm os fãs de cursinho de capacitação. Trabalho com uma tecnologia nada popular e sempre que precisei contratar alguém consegui, ainda que com alguma dificuldade. Os filtros que coloco normalmente são genéricos, pois uma realidade é quase imutável: o verdadeiro treinamento é aquele que acontece no local de trabalho.

A reflexão que deve ficar é: qual é a qualificação de verdade? E como fazer para chegar ao profissional que a tenha?

Só para adicionar ao debate, se perguntar a qualquer gerente quais as características mais importantes de um bom funcionário, sem dúvida a maior parte delas estará relacionada com suas capacidades pessoais, não necessariamente capacitações técnicas.

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One Comment leave one →
  1. Lucas permalink
    30/10/2011 23:51

    Essa é uma das razões pelas quais pretendo abandonar TI.

    Uma área extremamente ingrata, principalmente a longo prazo.

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