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Quando as máscaras caem

23/02/2011

Não vou citar uma fonte específica pois são muitas as que trataram do tema, mas uma pesquisa no Google pode trazer mais revelações. Sim, o tema a ser finalmente abordado é a crise na comunidade BrOffice, que já era conhecida por muitos e ficou escancarada nos últimos dias. Os motivos são vários, mas estão diretamente relacionados à definição de comunidade. Os líderes da “comunidade” de Software Livre no Brasil conhecem bem o tema, pois tiveram que lidar com o assunto à medida que seus projetos foram crescendo. Contudo, a questão central ainda permanece de difícil definição: afinal, o que é a tal comunidade? Será que ela existe mesmo?

Quem já me viu falando por aí sabe que tenho posições muito pragmáticas sobre o assunto, e vejo meus temores todos justificados quando o caso do BrOffice vem à tona. Uma comunidade de Software Livre é, por vocação, uma comunidade de prática para um objeto de conhecimento específico, onde a maior riqueza é o conhecimento produzido por muitas mãos. Não há dúvidas de que uma discussão em um fórum, uma documentação num Wiki, tudo isso tem um valor muito grande até mesmo em termos financeiros, muitas vezes contabilizados nos ativos intangíveis das empresas e instituições. A questão óbvia que surge quando toda essa riqueza está sendo gerada em um ambiente virtual é: quem vai se apropriar de tudo isso?

Já escrevi e falei muito sobre o tema, então se quiser saber mais dê uma olhada na seção de Palestras e Publicações aqui do blog. Se estamos colaborando em um ambiente virtual existe uma clara vantagem para quem é o dono do ambiente. Sempre existe a sensação de que a “comunidade” não pertence a ninguém, que é uma coisa democrática de domínio de todos, mas não prática não é isso que acontece. Um dos maiores exemplos que posso citar é o Portal Br-Linux, que pertence ao já conhecido Augusto Campos. As caixas de comentários das notícias publicadas no blog possuem quase que uma aura mística, e ao postarmos alguma coisa por lá temos a sensação de estarmos sendo ouvidos pela sociedade. Posso confessar que eu mesmo já tive essa sensação. Contudo, ao perceber a proliferação de propagandas que tornavam o site cada vez menos agradável em meu ponto de vista, percebi o óbvio: o Br-Linux nada mais é que um Portal de uma pessoa que ganha muito bem (obrigado) para mantê-lo funcionando. Qual o problema com isso? Nenhum, em absoluto. É uma maneira justa de ganhar dinheiro e se as pessoas continuam acessando é porque seu conteúdo continua sendo interessante.

O mesmo problema passa ao tentarmos dar um caráter tangível a algo que é intangível por natureza. A comunidade é uma aglutinação de pessoas que têm um objetivo comum (no caso o software), mas para passar a ser reconhecida pelo mundo real precisa de algo que a torne real para as instituições constituídas na sociedade. É o caso dos organizadores do FISL, que fundaram a ONG PSL-Brasil para organizar o evento e acabou representando a materialização da comunidade nacional de Software Livre que existia de maneira intangível e informal.

Chegamos agora ao ponto principal: no mundo capitalista e talvez até mesmo no socialista, nada se mantém sem dinheiro, e até mesmo comunidades como as citadas acima precisam de recursos para continuar existindo. Afinal, até mesmo para manter uma lista de discussão é necessário pagar um provedor que mantenha a estrutura tecnológica funcionando, para dizer o mínimo. E o perigo reside no caráter sombrio da alma humana: sempre que há dinheiro envolvido, serão formados os grupos de quem tem mais  e quem tem menos. Quando um grupo financeiramente dominante age sobre um ativo intangível trazido à tangibilidade através de uma OSCIP, o que acontece?

Já cansei de dar esse exemplo, mas acho conveniente repeti-lo porque pode ser que se encaixe no caso BrOffice: a Microsoft é uma das grandes contribuidoras da Apache Foundation. Vamos supor que em alguns (poucos) anos a sua contribuição dentro da fundação seja tão grande que ela domine, digamos, 90% das receitas da fundação. O que pode acontecer? Reflita um pouco…

Para ajudar na reflexão, dê uma olhada nessa notícia de 2007, já velha. Sim, no ano de 2007 o Google se tornou a marca mais valiosa do mundo. E o que o Software Livre tem a ver com isso? A resposta não é óbvia, mas é simples. Em algumas empresas, somente a marca chega a representar quase 90% de seu valor de mercado. Se trouxermos para o software Livre, talvez exista muita gente que não sabe o que é Linux mas conhece o Android. De fato, somente pelo fato de embutir a marca no produto o valor do mesmo pode ser radicalmente alterado. Se o Android tivesse seu nome alterado para robô por exemplo, mesmo que ainda fosse o mesmo software, certamente perderia grande parte do valor. Agora coloque-se no hipotético lugar da Microsoft: tenho 90% de uma OSCIP que detém uma marca que vale alguns bilhões de dólares. O que posso fazer? Começar a cobrar pelo uso da marca.

No caso de suites de escritório, que envolvem usuários em maioria leigos, a maior parte deles já não sabe o que é o LibreOffice, que substituiu o OpenOffice justamente porque a Oracle teve a ideia que acabei de exemplificar, imagine se mudar de novo? No Brasil, que provavelmente tem a maior base instalada de OpenOffice no mundo sob o nome de BrOffice, qual seria o valor da marca BrOffice?

Quando começamos com o Portal do Software Público muitas pessoas questionaram várias das atitudes que tomamos, tais como exigir o cadastro, burocratizar a liberação do software, utilizar licença em Português, etc. Todavia, desde o começo tínhamos a preocupação de criar um ambiente realmente neutro para compartilhamento de software, onde cenas como as presenciadas no caso do BrOffice se tornassem mais difíceis de acontecer. Claro, como o grande amigo Anahuac gosta de me lembrar, ainda dependemos da mão política e pesada do Estado, e tudo pode mudar com uma mudança nas diretrizes de Governo. Todavia me parece que temos mais argumentos de pressão popular para lidar com as intempéries de governos do que com o poder financeiro da iniciativa privada. Com a criação da licença pública de marca e o modelo de institucionalização estamos prestes a criar no Brasil aquele que será muito provavelmente o primeiro ambiente neutro para compartilhamento de software no mundo. E casos como os do OpenOffice e agora BrOffice se tornarão cada vez mais difíceis.

Para finalizar é importante ressaltar o grande trabalho que vem sendo realizado pelo amigo Claudio Filho. Ele vem lutando praticamente sozinho há muitos anos, e agora que parecia que as coisas estavam caminhando para o ponto de a OSCIP realmente apoiar a comunidade até com a contratação de desenvolvedores, sofre um pesado golpe da organização que ajudou a fundar. Estamos protegidos pelo menos por algum tempo, já que sei que algumas das marcas e patentes importantes para a comunidade estão registradas em seu nome. Agora que as máscaras da OSCIP parecem ter caído foi bom que a transferência ainda não tenha sido feita. Tenho certeza que está em melhores mãos.

O caso serve como um alerta para todos os que se pensam como líderes de comunidade: em algum momento você vai precisar das estruturas formais, e o jogo se tornará mais baixo e mais pesado com o tempo. É importante saber se estará pronto para lidar com as várias armadilhas que poderão ser jogadas sobre você.

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3 Comentários leave one →
  1. 04/03/2011 22:15

    É interessante (óbvio) que todas as marcas que recebem contribuições da comunidade sejam registradas não por empresas, mas por órgãos da própria comunidade, que tentem ser neutras.

    • Eduardo Santos permalink
      11/04/2011 14:17

      Olá catzurrul,

      O ponto é justamente esse: será que os órgãos da comunidade tendem a ser realmente neutros? Essa é questão.

      • 23/09/2011 00:28

        Se não forem neutros, que escolham a melhor empresa! rsrsr.

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