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A Sociedade Brasileira e o Mundo de Faz de Contas

21/02/2011

Fujo um pouco dos assuntos que vêm dominado a atividade do blog nos últimos tempos para realizar uma reflexão (mais uma) sobre nossos valores morais e sociais. Recebi pelo twitter de diversas fontes diferentes a seguinte notícia: “Os últimos suspiros do maior templo de luxo do Brasil“. A maior parte das manifestações que recebi diziam respeito à celebração do fim da Daslu, pois representa a loja preferida dos mauricinhos e patricinhas altamente endinheirados da elite brasileira. Elite sobretudo paulista, mas também brasileira, pois há relatos de gente que viajava até lá somente para fazer compras da última coleção.

Não sou consumidor de artigos de luxo, primeiro por não ter “bala na agulha”; segundo, por não ser tão intrinsecamente ligado à cultura consumista de marcas, que talvez tenha sua expressão máxima no antigo mas ainda popular seriado Sex and the City. Por tais motivos, um comentário postado na notícia me chamou fortemente a atenção:

Chega até ser interessante que muitos dos comentários abaixo possuem uma crênça que outros que se dedicam, que tornam-se eficazes, eficiêntes e produtivos em suas carreiras profissionais, pessoas que monstram ter habilidade e competência p/ ganhar dinheiro e ganham muito dinheiro e possuem a atitude de manter os frutos de seu trabalho e gastá-lo como queiram, são considerados os inimigos da sociedade com uma atitude imprática. Uma gula egoista por lucro, em nosso pais, ja é considerado uma coisa do passado. Agora se torna concebível que os interesses da sociedade as um todo, deve sempre ser colocado em primeiro lugar em qquer que seja o negócio sendo conduzido. Temos que pensar nos menos afortunados. Aqueles que nunca se esforçaram p/ nada, que vivem suas vidas na dependência do governo; Aqueles indolêntes que se beneficiam do nosso trabalho, sem trabalhar. Esses sim, são os tipos de seres humanos mais deprivados, esses são os homens sem um propósito.

O comentário foi postado por um usuário chamado Edivaldo Camargo, e contém uma síntese de todos os meus sentimentos em relação ao tema. De fato, para a maior parte das pessoas que moram no Brasil, parece um absurdo imaginar que tenha gente com tanto dinheiro para gastar com objetos tão pouco importantes. Vale ressaltar, contudo, que o maior problema na maioria dos casos não é o fato de o objeto ser absurdamente caro, mas sim de alguém estar “esbanjando” dinheiro com isso. O sentimento geral é de que a pessoa que está comprando algo assim está cometendo um crime. Afinal, tem tanta gente passando fome…

Um paralelo do observado acima pode ser traçado com o vídeo que mostra o procedimento de revista de uma policial feminina em São Paulo. A policial ficou forçadamente desnuda em frente às câmeras da corregedoria que tentavam registrar o flagrante. Coloquei o link mesmo sabendo que em pouco tempo ele será retirado, então você terá que buscá-lo em fontes alternativas se quiser presenciar o fato. O registro dos comentários revelam a indignação com os corregedores, que submeteram a tal policial  – comprovadamente corrupta, vale ressaltar – a um constrangimento por muitos considerado absurdo. Afinal, ela recebeu “apenas” R$ 200,00 de propina e a força utilizada para retirar as provas dela foi “claramente” absurda.

Os dois episódios me entristecem bastante não pelos fatos em si, mas pela revelação clara dos valores morais que permeiam nossa sociedade, são travestidos pelos meios de comunicação e totalmente esquecidos em época de eleição. Se a policial feminina estivesse roubando uma mala com alguns milhares de dólares muita gente não consideraria o crime tão grave, apesar de muitos ainda acharem que a força utilizada foi desproporcional. Em nenhum momento se questiona o fato de um guardião da lei estar quebrando-a em benefício próprio, mas sim o fato de que uma pessoa não pode ser despida à força na frente de outras do sexo oposto. O crime aqui é um atentado à moral, e não a corrupção da agente, o que chega a ser curioso, uma vez que agentes públicos deveriam ter boa índole e reputação ilibada, já que são beneficiados com a fé pública.

Voltando ao caso Daslu, existe um ditado que ouvi certa vez muito adequado para definir nossos valores morais enquanto sociedade:

Se um americano vê uma pessoa muito rica, ele diz: “um dia serei igual a ele”. Um brasileiro, ao observar a mesma abastância, diz: “um dia ele será igual a mim”.

Não conseguimos admitir o fato de alguém possuir muito, mas muito dinheiro mesmo. Nos parece completamente errado que alguém possa ter tanto num país onde outros têm tão pouco. Contudo, ao invés de utilizarmos os exemplos como espelho, somos dotados de um desejo quase mórbido de que a pessoa perca tudo e seja “rebaixada” ao mesmo nível que todos nós. O sucesso, principalmente financeiro, de outras pessoas é errado, e nos divertimos com a possibilidade de algum dos que está no patamar superior perder tudo. Casos de derrocada financeira são acompanhados quase como uma novela, onde os vilões são os reconhecidamente ricos e abastados.

Sabemos que as causas para o fenômeno são muitas, e sempre que vejo algo do gênero me lembro daquele que talvez tenha sido o maior empreendedor da história do Brasil: Barão de Mauá. Ele ergueu um cabo subterrâneo de telecomunicações entre o Brasil e a Europa de graça somente para obter reconhecimento social, e ainda assim suas conquistas não são reconhecidas pelos livros de História. Pelo contrário, é como se ele não tivesse existido, pois como grande empreendedor chegou ao “absurdo” de ser mais rico que seu próprio país, sendo por isso perseguido até culminar com sua morte no ocaso.

Consideramos ser rico um comportamento moral errado, ao mesmo tempo em que consideramos errado aquele que prende o policial corrupto por seus “métodos violentos” que ferem gravemente a moral da sociedade brasileira.

Sinceramente, às vezes acho que vivemos num país de faz de conta, onde a maior parte de nós idealiza uma sociedade que não existe. O maior reflexo disso é a nossa legislação penal: a maior preocupação não é punir os bandidos, e sim garantir que ninguém seja “injustiçado”. A legislação anti-drogas foi alterada para que os usuários comuns não sejam presos, e sim os traficantes. Como? Agora há um mínimo para que o cara possa ser preso. Uma arma perfeita para os traficantes, que escondem as drogas em lugares públicos, andam somente com quantias permitidas pela lei e são presos e soltos diariamente. Se o policial encontra a droga escondida o traficante alega que não era dele, e acaba sendo absolvido pelo judiciário, pois a droga estava em área pública.

Ao mesmo tempo vemos a infinidade de recursos que paralisam a justiça brasileira. Se alguém é condenado a mais de 22 anos de prisão (posso estar errando aqui porque não sou advogado, mas a essência do que quero dizer está dentro da lei) ganha automaticamente direito a um novo julgamento, pois precisamos garantir que ele tenha todas as chances possíveis e imagináveis para uma democracia. Enquanto isso, os membros do judiciário trabalham seis horas por dia e um profissional de nível médio ganha mais de R$ 4.000,00 para ajudar nos trabalhos burocráticos. E a justiça é lenta. Certamente porque há trabalho demais. E os professores ganham em torno de R$ 1.000,00 para cuidar da educação no Brasil.

Será que um dia vamos acordar e perceber que o mundo não é tão cor de rosa quanto pinta nossa legislação? Será que vamos entender o verdadeiro conceito de moral e construir uma sociedade mais ética?

As ações no Rio me deram alguma esperança. Para o povo do Rio que mora nas favelas a realidade está à porta todos os dias, e quando a mão forte do Estado organizado chegou eles a abraçaram. Mas quantos mais terão que morrer para que entendamos como a nossa situação é grave? Não tenho dúvidas de que, se o Brasil fosse perto dos EUA, morreria muito mais gente do que acontece hoje no México.

O pior cego é aquele que não quer enxergar, e fracassado é aquele que se esconde atrás dos defeitos dos outros. Nunca esqueço de uma frase dita por um professor no segundo grau: “em terra de cego, quem tem um olho só é caolho do mesmo jeito”. Sim, enxerga mais que os outros, mas enxerga pouco. Adianta? Depende da ambição, e justamente aí mora o problema.

Pílula de pensamentos soltos e conectados, refletindo sobre de onde viemos e para onde vamos.

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