Skip to content

Egito, MinC e o poder das redes

17/02/2011

Depois de um longo tempo, o blog retoma as atividades misturando dois assuntos que têm bastante relação um com o outro, e mostram como diferentes formas de utilização da Internet podem transformar (ou não) o contexto político e social. Os assuntos são os que fervilharam nas redes no começo de fevereiro e final de janeiro: a mudança da licença de divulgação do conteúdo no site do Minc, que removeu a licença Creative Commons para o conteúdo, e a revolução no Egito, que culminou com a renúncia de seu “presidente”. Ambos os fenômenos têm em comum a forte utilização da Internet e das redes sociais como iniciativas de mobilização popular, mas como bem sabemos os resultados foram completamente diferentes. No Egito o “presidente” renunciou. Já no Brasil… Bem, no Brasil não aconteceu nada. E nem acho que vá acontecer.

Analisando primeiramente o fenômeno egípcio, precisamos entender como a mobilização aconteceu e o que levou os manifestantes a tomar as ruas e pedir a renúncia do “presidente”. O melhor resumo dos fatos que encontrei foi nesta notícia da Carta Capital, da qual vale a pena destacar um trecho:

Para Vidigal, as redes sociais representam um fato novo com grande influência nesse processo. “O uso das redes sociais para as mobilizações, sem dúvida alguma, é um fato novo, como também é um fato novo o surgimento de democracias verdadeiramente populares”, destacou o professor.

Vidigal é o professor convidado pela revista para explicar o tema e dizer porque as redes tiveram um papel tão importante. De fato, após 30 anos no poder, já não havia mais clima para a manutenção do poder no Egito. Então por que somente agora a população se revoltou e foi às ruas pedindo sua saída? É quase um consenso entre os especialistas que o fator mobilizador foi as redes sociais. A princípio, manifestações foram marcadas para a agora famosa Praça Tahrir, lideradas por um pequeno grupo de usuários reunidos através de facebook e twitter. Como já abordei em vários outros posts aqui no blog, o que aconteceu foi um típico fenômeno de Internet: as pessoas começaram a dar RT e curtir as mensagens umas das outras, e logo grande parte da população estava sabendo dos encontros. Foi mais ou menos como flash mob político. As consequências já são conhecidas e consagradas por todos: após muitos dias de protestos com centenas de milhares de pessoas nas ruas, o presidente não aguentou a pressão e renunciou.

O interessante é notar como o encontro desinteressado progrediu até se tornar uma revolução social. Não há dúvidas de que tudo isso aconteceu principalmente por duas causas:

  1. A inclusão digital da população egípcia, que apesar de não ter encontrado dados para comprovar, aparentemente tem bastante acesso à Internet;
  2. Engajamento político de seus cidadãos (pelo menos nesse tema).

A importância da Internet para a revolução egípcia foi reconhecida até mesmo pelo governo, que como um ato desesperado de defesa, cortou primeiro o acesso às redes sociais para em seguida bloquear totalmente o acesso à Internet. Para os que me chamaram de maluco quando alertei sobre os problemas principalmente com o Google, o Egito é um bom exemplo de como se corta o acesso à rede.

No Brasil, o grande caso da mudança da licença no conteúdo do MinC, que tem razões muito mais profundas, gerou também um certo “fuzuê” na rede brasileira. Diversos blogueiros lançaram notas de repúdio, houve campanhas no twitter, personalidades importantes se manifestaram, enfim, uma verdadeira mobilização nas redes sociais. Se um desavisado conhecesse o Brasil somente através das redes, diria que a Ministra Ana de Hollanda estava prestes a cair. Então, se a mobilização na Internet por aqui também foi grande, por que a ministra não caiu?

A resposta parece óbvia: porque não havia milhares de pessoas nas ruas pedindo sua saída. Na verdade, tirando as manifestações virtuais, atos concretos contra as atitudes da ministra foram poucos. À exceção da entrevista dada pelo deputado Paulo Teixeira, não houve nenhum manifestação política concreta de repúdio às atitudes do MinC. Ninguém foi à porta do Ministério fazer pressão, ligou para os seus deputados para exigir uma posição, enfim, nada. Sim, os deputados são nossos, porque afinal fomos nós que os colocamos lá, e em uma democracia teoricamente o deputado é representante do povo. Seu papel deveria ser ouvir sua base de eleitores. Você que é contra a atitude do MinC, ligou para ele (seu deputado) e exigiu uma atitude?

Já abordei o assunto em outra oportunidade, mas os fenômenos servem para ilustrar como a Internet é importante, apesar de menos do que se imagina, porque ela nada mais é do que a materialização virtual de nossa sociedade. De fato, não somos politizados, não temos interesse nos problemas de nosso país, não nos preocupamos com as políticas executadas por nossos governantes e temos certeza absoluta de que isso não é problema nosso. Afinal, político é tudo ladrão e não tem jeito mesmo.

Quer um exemplo concreto? Qual foi, até hoje, a maior mobilização popular da Internet brasileira? Sim a campanha Fora Sarney, que teve até mesmo organização de passeatas em vários estadostentativa  de cobertura do programa CQC que logo depois foi censurado. E em que resultou a campanha? Meia dúzia de gatos pingados nas ruas de algumas capitais carregando cartazes que não conseguiram sequer fotos em jornais de grande circulação. Claro, isso é problema da imprensa brasileira, que censura determinados assuntos que não são politicamente interessantes, mas o fato é que não houve apelo popular. Não houve revolução. Nada (ou quase nada).

Em uma sociedade com ânsia por democracia como se revelou a egípcia, de fato a Internet é muito importante como ferramenta de mobilização, mas precisa ser acompanhada de atitudes concretas. Ao acompanhar, blogs, microblogs e redes em geral vejo que somos muito bons em utilizar a rede como ferramenta de expressão de nossas indignações, que fazemos questão de ressaltar sempre que possível. Traduzindo para uma linguagem mais clara, não falta gente pra “xingar muito no twitter”, mas na hora de tomar atitudes concretas a mobilização é praticamente inexistente.

Espero o dia em que tenhamos capacidade e discernimento para de fato transcendermos as barreiras virtuais e entendermos a importância da mobilização política. Como tudo depende de educação, e não vejo nos próximos oito anos nenhuma possibilidade de mudança de prioridades em nossos governantes, acho que ainda vai demorar.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: