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A Vitória desejada que eu não comemorei

22/11/2010

Agora que já se passaram mais de 20 dias do final das eleições, o cenário já está mais calmo e uma primeira análise é possível de ser realizada deixando as paixões pessoais de lado. Minha candidata, aquela que eu mais desejava que ganhasse, venceu a eleição para a Presidência do Brasil. Os outros candidatos em que votei também tiveram bom desempenho nas urnas, e pela primeira vez todos os candidatos que eu votei foram eleitos. Antes de começar a refletir sobre as eleições, segue minha lista de votos:

  • Presidente: Dilma Roussef (PT)
  • Governador: Agnelo Queiroz (PT)
  • Senador 1: Cristovam Buarque (PDT)
  • Senador 2: Rodrigo Rollemberg (PSB)
  • Deputado Federal: Reguffe (PDT)
  • Deputado Distrital: Chico Leite (PT)

Apesar do bom desempenho nas urnas, não consegui comemorar o resultado das eleições. Nada a ver com o resultado em si, mas pelo andamento do processo eleitoral. Saí das eleições com duas certezas:

  1. Brasileiro não dá a mínima para plataforma política;
  2. O velho modo de fazer política, inventado por Getúlio Vargas, aperfeiçoado pela Ditadura, que teve seu ápice na eleição do Presidente-Playboy Fernando Collor, está mais vivo do que nunca.

As duas vertentes dominantes da eleição foram os pseudo-politizados e os fãs de big brother. Os pseudo-politizados eram aqueles que reclamavam dos candidatos porque não tinham plataforma política, mas sequer leram ou se informaram a respeito dos programas de governo. Houve algumas mudanças inacreditáveis na eleição: eu vi o Serra defender o aumento do bolsa família!!! A melhor descrição do fenômeno “vitória a qualquer custo” do Serrismo que encontrei foi essa aqui da Carolina Mendes, e não vou repetir as palavras dela aqui porque espero não ter que falar do Serra nunca mais (doce ilusão). O ponto é que todos conhecem (ou deveriam) a plataforma de governo do PSDB, do neo-liberalismo, que eu não aprovo, mas não acho errado defender. O que acho errado é “fingir” que essa não é a plataforma deles. De qualquer forma, o ponto aqui é o mesmo: os pseudo-politizados, muitos deles votando na Marina, reclamavam da plataforma política, sem se dar conta que dificilmente ela poderia ser mais clara entre os partidos que foram ao segundo turno. Curiosamente, a plataforma mais nebulosa é da Marina, que é quase o samba de uma nota só do meio-ambiente, mas que não tem um proposta concreta de país. Na minha humilde opinião, esses eram os mais chatos, porque sempre achavam que sabiam do que estavam falando e se sentiam verdadeiros guardiães da democracia e liberdade.

Já os fãs de big brother eram aqueles que ficavam buscando detalhes do comportamento dos candidatos e soltavam pérolas do tipo: “fulan@ não presta para governar o país. É muito fei@”. Eram também os que mais se atentavam a boatos atirados pelos dois lados, como dados falsos e mentiras de ordem geral. O maior exemplo foi a “febre do aborto” que praticamente tomou conta das eleições no final do primeiro turno e começo do segundo, até que descobriram que a mulher do Serra já tinha feito um. É a mesma maneira de fazer política que vem da época da ditadura e teve o ápice com Collor: muito marketing e ataques ao adversário. Nesse modelo, plataforma política é para os fracos. Vale o dedo no olho e a troca de acusações, onde os eleitores se comportam como verdadeiros torcedores, parecido aos chatos que ficam pedindo voto para BBB no twitter. O outro lado é o inimigo, que deve ser vencido e humilhado a qualquer custo.

Só para constar: sou totalmente contra o aborto e, como procurei me informar minimamente, sabia que a liberação não estava no programa de governo da Dilma. Foi mais um boato atirado ao vento que pegou, infelizmente. Não sou inocente e sei que essa proposta pode aparecer no PT, porque muitos dos políticos do partido são a favor. Talvez essa seja a hora em que ocorra meu rompimento com sua plataforma política, mas por enquanto continuo acreditando na força de nossa sociedade em não deixar isso passar de jeito nenhum. Eu diria que esse foi o único legado positivo dessa eleição.

Como os perfis acima representavam quase 90% do eleitorado, cheguei à conclusão que precisamos entender rapidamente o que é política. As pessoas não conseguem entender que não é questão de gostar: a política está presente em nosso dia-a-dia, quer gostemos ou não. Enquanto o ser humano viver em sociedade haverá pontos de vista distintos, e será necessário um conhecimento social e político para não nos perdermos no meio do caminho. No Brasil sei que o entendimento é complicado, pois só existe um remédio para a doença da despolitização: a educação. Mas estou pouco esperançoso, pois como disse no post anterior, outro ponto que me deixou bastante triste foi a candidata de uma plataforma única (o meio-ambiente) ter 10 vezes mais votos (proporcionalmente) que o candidato de 2006 que defendeu única e exclusivamente a educação. Quanto mais viajo para fora do Brasil, vejo que para todas as perguntas existe somente uma resposta: a educação. Como diminuir a violência? Educação. Como aumentar a riqueza? Educação. Como distribuir melhor a renda? Educação. Como oxigenar a classe política? Educação. Como salvar o planeta (meio-ambiente)? Educação. Educação. Educação…

A minha tristeza vem do fato de perceber que não será nessa vida que verei o país que sonhei para os meus filhos. Eu, que sou brasiliense apaixonado e convicto, percebo que também não deixarei sequer a mesma cidade que recebi do grande visionário Juscelino Kubitschek. Aliás, percebo que não deixarei sequer a mesma escola pública e de qualidade, que pode ser definida como educação libertadora. Meu querido e amado CEAN já sofre de 12 anos de Eurides Brito na Secretaria de Educação do GDF e, infelizmente, não tem mais a capacidade transformadora que tinha em minha época. No segundo grau aprendi a tocar na escola, tive aula de teatro, fundei um grupo ecológico (o famoso Oceano Verde, que existe até hoje), participei de um Congresso de Educação e ajudei a construir o sonho que acabou da Escola Candanga, aprendi sobre política reativando o Grêmio Estudantil e participando de um congresso da UBES, aprendi literatura e artes, superei meus traumas, entendi o significado da palavra companheirismo com amigos que estarão comigo para sempre, aprendi a dançar, a escrever, a pintar (não, isso eu não aprendi), tive verdadeiros mestres, tentei tocar violão (não consegui), conheci meninas maravilhosas, viajei para Porto Seguro, conheci o medo e a violência e aprendi a superá-los sozinho. Ah, e aprendi também Português, Geografia, História, Matemática, Física (na verdade não aprendi na escola. Só na universidade.), Química (essa sim aprendi), Biologia (na força), e algumas outras coisas mais.

A verdadeira revolução que o país precisa está na educação, e apesar de achar que seremos muito bem governados nos próximos quatro anos, a revolução que precisa acontecer não acontecerá sequer nos próximos dez anos. Os políticos são expoentes de nossa sociedade, e o povo não quer saber de educação. Talvez por termos passado tantos anos sem saber que podíamos, agora que podemos não conseguimos acreditar na mudança que somos capazes de operar. Se Paulo Freire tivesse nascido em qualquer outro país, seria um dos maiores heróis nacionais. Numa Universidade de Cuba que não me lembro um nome existe uma cátedra que se chama Paulo Freire; seus feitos são reconhecidos em todos os cantos da Europa. No Brasil, tenho certeza que a maior parte das pessoas sequer sabe quem ele é.

O que me deixa triste na eleição não é o resultado em si, mas a forma como ele ocorreu. Os religiosos conseguiram arrancar da Dilma uma carta onde ela se comprometia a não aprovar o aborto. E uma carta com o compromisso de erradicar o analfabetismo, por exemplo? Ou a promessa de instituir a educação integral e a prática esportiva, musical e artística, por exemplo? Como já dizia o bom e velho Nativus (Natiruts pra mim “no exziste”!!!) precisamos de “Liberdade pra Dentro da Cabeça”.

Que venham as próximas eleições, e já tenho um slogan para os próximos candidatos: Acorda Brasil!!!

Capa do álbum do Nativus

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4 Comentários leave one →
  1. muratori permalink
    23/06/2013 22:13

    hahaha acho que voce anda bem com as previsoes. Acorda Brasil…hahahah

    • Eduardo Santos permalink
      24/06/2013 00:16

      Vixe, é verdade! Só agora me toquei!

      Vou reivindicar direitos autorais do termo “O Gigante Acordou!”

      hahahahaha

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