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Brasília 50 Anos

22/04/2010

Como um bom brasiliense, nascido, crescido e criado em Brasília, não poderia deixar passar uma data tão importante quanto o aniversário de 50 anos da minha cidade. Sim, minha cidade, pois todos aqueles que nascem em Brasília têm a percepção de que a cidade lhes pertence. Não podemos nos esquecer que, mais do que quase todas as cidades do mundo, a cidade de Brasília foi construída pelo povo brasileiro, os bravos candangos, gente de todas as partes do país. De uma maneira geral, é possível dizer que a maior parte deles foi bastante feliz, e decidiu continuar vivendo aqui, muitos até hoje.

O poema de Dom Bosco talvez seja a melhor representação do clima quase místico que cercou a construção da cidade:

Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: ‘Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração’.

Fonte: cotidianolivraria.blogspot.com

Eu nunca vi leite e mel escorrendo pelas ruas da cidade, mas não dá para negar que uma aura mística sempre cercou a sua existência. As pessoas que vieram para cá no começo a repassaram a seus parentes, e Brasília é vista até hoje, principalmente na região Nordeste, como a terra prometida de riqueza para todos os que aqui viverem. Riqueza essa que, de forma indireta, chegou para os que se embrenharam no meio do Cerrado para trabalhar em sua construção. Muitos fugidos da seca e pobreza no Nordeste, a população da cidade no começo era formada basicamente de operários, e até mesmo os mais bem afortunados que para cá vieram aderiram ao clima de simplicidade que existia na cidade no começo. São comuns os relatos de um Juscelino vestido com botas sujas de lama percorrendo pessoalmente todos os canteiros de obras. Somam-se a ele os ilustres Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro e muitos outros importantes pioneiros.

Juscelino Kubistchek, ou JK para nós, os íntimos, é o maior ídolo de qualquer brasiliense. Acima de qualquer jogador de futebol, músico, enfim, acima de tudo e de todos, vemos nele a personificação de todos os sonhos realizados através da cidade. Cada tijolo erguido leva um pouco de sua marca, principalmente por ser um visionário e lutar pela construção da cidade quando outros simplesmente ignoraram a “obrigação”. Ele é como um pai universal, alguém que lembraremos e reverenciaremos até o fim da vida. Exagero? Sim, provavelmente. Mas a vida sem exageros não tem muita graça.

Existe gente muito mais capacitada que eu pra falar da história de Brasília, e não vou nem tentar tocar no assunto. Afinal, vivo aqui desde que nasci, mas não nasci há tanto tempo assim. Também não vivi intensamente a década de 80 porque era muito pequeno na época, e me considero representante da geração da década de 90, muito diferente de seus antecessores. Sim, sou da primeira geração de brasilienses, pois meu pai é piauiense (também me considero um pouco) e minha mãe é mineira, mas não podem ser considerados candangos por não terem trabalhado diretamente na construção da cidade. Aliás todo brasiliense odeia ser chamado de Candango. Pra você que não sabe, Candango é quem trabalhou na construção da cidade (veja na Wikipedia), e quem nasce em Brasília é brasiliense. Nada contra os pioneiros, pelo contrário, temos um respeito enorme por eles. Apenas uma questão de corrigir um erro comum. Tá bom, pode falar da gente. Divirta-se com a Desciplopédia.

E afinal, que povo é esse, crescido em Brasília e criado na década de 90? Outro dia esta conversando com uma amiga baiana sobre as características das populações dos diferentes estados e ela me fez uma pergunta que não consegui responder na hora: e o brasiliense, qual a sua característica? Bom, somos principalmente um povo aberto e que viaja bastante. Nossos pais nasceram pobres, mas foram fruto das transformações trazidas por Brasília e conseguiram uma vida relativamente confortável. Não somos ricos, somos os representantes da classe média emergente da cidade, que hoje vive sufocada principalmente com o alto preço dos imóveis. Mas esse é assunto para uma outra discussão. Por termos raízes em outros lugares, viajamos muito, principalmente para o Nordeste. Temos certeza absoluta que vivemos na praia, pois adoramos roupas que lembrem o clima de praia, e qualquer feriado é motivo para enforcar alguns dias a mais de trabalho e viajar para algum lugar. De preferência a praia, paixão maior de qualquer pessoa que vive aqui.

Somos divididos em pequenos grupos normalmente distribuídos por região geográfica: a galera da quadra, da cidade, da região. Há também as “turmas”, que são formadas por outras relações: a turma do futebol, a turma do trabalho, a turma da faculdade. Por esse motivo, os grupos acabam criando fortes afinidades e tornando-se muito fechados, então sim, a cidade pode ser considerada fria nesse aspecto. É muito difícil entrar em algum grupo que já esteja formado. Infelizmente, por mais que deteste admitir isso e lute fortemente contra essa característica, essas divisões geraram um povo muito preconceituoso, não referente à cor da pele, mas sim às condições sócio-econômicas. Na minha infância e cada vez mais, as pessoas que crescem em Brasília sequer sabem que as cidades-satélite existem. Às vezes até sabem, mas não têm a menor ideia de onde ficam. Há um ripo de preconceito velado que segrega violentamente a cidade e dificulta até mesmo a ascensão no mercado de trabalho por quem mora em tais regiões.

Mas há também o lado humano da cidade. Me lembro de brincar de pique-esconde embaixo do bloco, onde juntavam-se facilmente 50 crianças que moravam na região. Nesse ponto acho que o plano de Lúcio Costa teve a sua mais bem-sucedida iniciativa: a parte de baixo dos pilotis representam o espaço mais democrático da cidade, onde ficam os idosos, as crianças, os casais, enfim, é um espaço de convivência que não tem precedentes. Contudo, a escalada da violência agravada pelos abismos sociais entre o plano-piloto e as cidades-satélite tem tornado os espaços comuns cada vez mais perigosos, e já não se veem mais tantas pessoas embaixo dos blocos como antigamente. Sinal dos tempos? Talvez, mas é com um certo ar de nostalgia que passo por ali e vejo as quadras bem mais vazias do que em minha infância.

Graças ao plano de Lúcio Costa, temos uma estranha sensação de liberdade, de andar livremente pela rua, de apreciar e amar a natureza (sobretudo o Cerrado) e um senso de respeito e amor à Pátria construído passando todos os dias pela sede do poder. Sim, o poder está ali, mas é mais como uma paisagem, pois não temos ânsia de conquistá-lo como tinha a geração anterior: queremos uma vida tranquila, curtir nossos filhos, viajar no feriado e conhecer o mundo. Por ser fruto da mistura do país, somos um povo cosmopolita, e estamos pronto para mudar de novo se necessário for. Mudar, contudo, apenas fisicamente, pois o nosso coração já tem dono. Pertence ao pôr do sol na esplanada, aos bosques da cidade, às cachoeiras e lagos do entorno. Sim, pertencemos à essa cidade da mesma maneira que ela nos pertence.

De todas as coisas construídas em Brasília, a mais bonita de todas foi feita antes de chegarmos aqui. Como já dizia Djavan, o céu de Brasília se une perfeitamente ao traço do arquiteto, e muitas vezes ao dia nos pegamos olhando para ele. Algumas vezes admirando, outras refletindo, mas em todas amando. Amando o fato de termos nascido aqui, de morarmos aqui, ou de simplesmente estarmos aqui. Ser e estar são verbos que se fundem ao pensar em nossa terra natal, pois pouco importa se nascemos aqui ou viemos para cá. O sentimento é quase sempre o mesmo.

Encerro a minha mensagem de parabéns agradecendo um pouco aos responsáveis por construir a idade que tanto amo. Obrigado Juscelino, por acreditar em nós. Obrigado Oscar, por dar o melhor de sua vida à essa cidade, e nos permitir apreciar um pouco de sua genialidade todos os dias. Obrigado aos pioneiros pelo suor e sangue que derramaram na construção de nossa casa; o trabalho de vocês foi simplesmente maravilhoso. E, principalmente, obrigado Brasil, por construir e manter a minha amada cidade.

Aos que estão à procura de uma cidade para chamar de minha, me orgulho em dizer: venha para Brasília. Pois uma cidade construída por todos os brasileiros é uma cidade de todos nós.

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