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As novas regras do jogo na Internet

19/03/2010

Já foi tema de muitos artigos e até livros a dificuldade que algumas corporações têm em lidar com grandes mudanças no mundo que as cerca, principalmente quando algumas delas acontecem no centro de seus negócios. São vários os fatores que levam a uma grande inércia, como dominação absoluta do mercado em que atuam, falta de investimento em pesquisa em desenvolvimento, enfim, várias características que acabam tornando a organização um pouco “arrogante”. Quando chegam nesse ponto, dificilmente as organizações estão preparadas para ouvir que o negócio que dominam há muito tempo, talvez séculos, e principalmente o modelo de negócios, mudaram tanto que ela se tornou obsoleta.

Um claro exemplo no mundo da tecnologia é a Microsoft. Durante anos a empresa relegou a Internet a segundo plano, justamente por achar que poderia imprimir à rede o mesmo sentido monopolista que tentou fazer com seus softwares: criou a sua própria rede, chamada MSN (sim, o famoso comunicador vem daqui) ou Microsoft Network, e decidiu conectar automaticamente todos os proprietários de máquinas com Windows à ela. Como podemos ver, a ideia não vingou, e eles perderam muitos anos na batalha por um espaço na rede, enquanto empresas como Google e Yahoo “nadavam de braçada” num mercado pouco explorado até então.

Sempre existe um CEO ou outro executivo pronto para dizer que inovação é prioridade para sua empresa, e que não é uma nova onda que vai derrubá-los. Podemos dizer que organizações, assim como pessoas, também podem ser encaradas como seres vivos que têm capacidade de evoluir. Aliás, quanto mais pesquiso e estudo a área de redes sociais, mais eu vejo que alguns dos conceitos da biologia podem servir de base para a explicação de vários fenômenos, mas deixemos essa discussão de lado por enquanto. O fato é que elas possuem sim capacidade de aprendizado, e podemos fazer uma analogia ao caso IBM. Estamos cansados de saber que eles levaram o famoso “balão” da Microsoft, ao não exigir exclusividade no Sistema Operacional de computador, seguindo o que eles acreditavam na época e hoje já virou motivo de piada: “a verdadeira riqueza está no Hardware, não no software”.

Contudo, mesmo após serem esmagados por um empresa que ajudaram a criar, a IBM é o exemplo de organização que soube se reinventar. Sobreviveu à explosão do software como produto, ganhando algum dinheiro no caminho com seus próprios softwares e outros que compraram na hora certa, e hoje está alinhada à comunidade de Software Livre, sendo uma das grandes contribuidoras com o Kernel do Linux. Seu caso foi objeto de estudo do livro Wikinomics, que recomendo demais como leitura para quem quiser começar a entender o novo mundo. Olhando a perspectiva de futuro que acredito ser a mais correta, podemos dizer que estão novamente “surfando na crista da onda” e prontos para o que se desenha na área de informática.

Não podemos nos esquecer que empresas são compostas de pessoas, e grande parte do sentido de inovação que pode ser imprimido a elas vem da capacidade de renovação em suas cabeças. Ou seja, toda mudança passa sim por uma mudança de quadros, além de uma necessária readequação em seu pensamento coletivo. Sim, empresas possuem mente coletiva, que é responsável por moldar o perfil ideal para as lideranças e até mesmo definir as diretrizes de crescimento. O coletivo é formado por todos os funcionários, e pode ser fortemente influenciado pela mente das lideranças, gerando um círculo vicioso que tende a manter o pensamento atual. Quebrar a força da coletividade é um grande desafio, por isso todas as mudanças estruturais realizadas em organizações costumam ser traumáticas para os funcionários.

Trazendo o exemplo para a rede, já está consolidado o conceito de ciberespaço, onde todos nos tornamos apenas um nó numa teia universal de informação, circulando através da Internet. Empresas de informação, principalmente o Google, dependem da indexação de uma quantidade cada vez maior de páginas da Internet, para só então poder aplicar a elas seu famoso algoritmo de page rank. Ou seja, eles precisam ter toda a Internet em seus domínios, e já é um consenso que circula sobre quem hospeda páginas na Internet de que, se não é encontrado através do Google, simplesmente não existe. Trazendo o conceito de ciberespaço, o que o Google tenta fazer é criar uma cópia dele e colocar em seus servidores. Há problemas nisso, que já escrevi aqui e aqui, mas analisando na perspectiva do ciberespaço, uma pessoa é conhecida pela quantidade de nós na grande teia de informações da Internet que estão diretamente conectados à ela.

Tona-se então cada vez mais difícil separar o tipo de vida que levamos. Antigamente, saíamos de casa e íamos ao trabalho, e ao sentarmos em nossas mesas girávamos a “chave mental” para o modo trabalho. Passávamos a executar tarefas relacionadas ao trabalho, conversar com os colegas de trabalho, atender telefonemas de trabalho, e só éramos interrompidos pela visita de um amigo ou um telefonema de casa, enfim, pela inserção no ambiente de algo que não representava trabalho. Quando trazemos o exemplo para a Internet, o exemplo da casa branca é emblemático. O Governo dos EUA utilizou o twitter para fazer campanha sobre um projeto de lei que eles desejavam que fosse aprovado, e já há alguns especialistas dizendo que as redes podem ser mais eficientes que o lobby. Sim o twitter, eleito vilão número um das empresas, que só serve para distrair os funcionários, bloqueado e renegado em quase todas as redes corporativas que conheço. Será que quando leio um link de notícias me passado via twitter estou trabalhando? Ou apenas perdendo tempo de trabalho precioso e caro para a empresa?

O fato é que o ciberespaço nos transforma em seres virtuais conectados à todas as informações que circulam nossa vida, seja de trabalho, de lazer, um hobby, ou até mesmo a vida social. O grande problema é que a maior parte das organizações não está preparada para lidar com isso. Afinal, esses jovens da geração Y (nós) não respeitam hierarquia, são inquietos, fazem muitas coisas ao mesmo tempo, enfim, eles (nós) não trabalham direito. O próprio sentido do trabalho muda totalmente de figura, pois para a minha geração, satisfação profissional é uma das coisas mais importantes na carreira, ou seja, temos que gostar do que estamos fazendo. Como vivemos o tempo todo conectados (principalmente no Brasil) é muito difícil acessar em casa somente assuntos pessoais, assim como é difícil no trabalho falar apenas sobre trabalho. Não estamos falando necessariamente de uma coisa ruim, pelo contrário, o “eu virtual” é capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo, sem necessariamente perder qualidade no que está sendo executado. A pergunta que precisa ser feita é: no mundo virtual, que precisa do ciberespaço, como posso “controlar” o que o meu funcionário está fazendo? Indo mais além, qual a diferença entre falar sobre futebol com os meus colegas de trabalho e acessar um Portal com notícias sobre o meu time?

É aí que a defesa da liberdade ganha um sentido diferente. O ciberespaço, por definição, só existe numa Internet pública, baseado em padrões abertos, com total liberdade de acesso à informação (veja definição aqui). O Governo da China talvez tenha sido o primeiro a perceber que, para continuar controlando a informação, seria preciso controlar o ciberespaço, e contou até mesmo com a ajuda do Google nessa cruzada. Agora, eles perceberam que podem fazer o caminho contrário: é muito mais fácil “controlar” alguém se tenho acesso a toda a sua vida virtual, e aí está um dos maiores perigos do mundo virtual. Qual é a diferença entre o governo chinês e as redes corporativas? Sugiro agora a leitura do excelente artigo publicado no Portal do Nassif sobre o ataque ao Google. É possível acessá-lo aqui. Leia o artigo e depois volte para cá.

Qual vocês acham que é o grande medo do Google: o acesso à informação de alguns usuários ou o comprometimento de informações vitais à segurança nacional dos EUA? Como vimos no artigo citado, algumas empresas souberam lidar melhor com a situação, por deixarem as informações sensíveis mais resguardadas em redes independentes. Para quem entende pouco de Informática, isso significa que mesmo conectado a uma das redes, não se tem nenhum acesso às informações contidas na outra. No caso do Google, isso é simplesmente impossível, pois a interconexão das informações é o elemento central de sua riqueza, e quebrá-la poderia siginificar a falência de seu modelo de negócios. Como eles decidiram resolver o problema então? Tudo indica que estão saindo do China. Então eu pergunto: não há dúvidas que é possível ao Google deixar a China (enquanto empresa. Já os usuários…), mas será que a China vai deixar o Google?

Aliás, questões como soberania nacional estão sendo desafiadas como em nenhum momento da história da humanidade. No ciberespaço, onde as barreiras físicas simplesmente inexistem e a língua passa a ser cada vez menos uma limitação, as relações que constituem as comunidades e, quem sabe no futuro, as nações, são muito mais relacionadas às afinidades. É possível dizer, por exemplo, que existe um grande universo Emo na rede que só foi constituído por causa e através do ciberespaço, e não possui barreiras virtuais, leis ou códigos. É preciso ainda definir quais serão os limites, e como os países serão representados nesse novo mundo. O SERPRO já percebeu um dos problemas, e outros ainda vão surgir. Estamos acostumados a falar da comunidade de Software Livre, e sabemos até quem são nossos líderes, mas quais são suas nacionalidades? Que leis eles obedecem? Eles são escolhidos democraticamente? Qual o seu vínculo com meu ciberespaço e meu país?

Qual o controle que desejamos manter sobre os funcionários da organização? Se estivéssemos na China, seria aceitável dizer que há assuntos proibidos, mas é possível impedir um brasileiro de falar mal do Governo, por exemplo? É correto dizer a eles que, em horário de trabalho, estão proibidos de falar sobre futebol, pensar sobre sexo, atender um telefonema pessoal, falar com amigos no Facebook, acessar o twitter, etc? Como vimos no caso dos EUA, alguns governos estão aprendendo a potencializar o uso de redes como twitter, enquanto outros estão simplesmente proibindo o acesso. O caminho a ser seguido passa pelo entendimento de que, mais do que um funcionário, estamos falando de pessoas, e por mais que não seja do gosto da empresa, elas existem no ciberespaço. Como diria o falecido amigo DPádua, “tecnologia é mato, o importante são as pessoas”.

Obs.: Quer fazer um teste? Você considera a sua empresa um bom lugar para se trabalhar? Você se acha amado pelos seus funcionários? Procure sobre seu nome e sua empresa em redes como Orkut e Facebook. Descubra a verdade. O que você fez para merecer isso? Não sei. Sei apenas que, se você ainda não sabia o que estava sendo dito, sua empresa está prestes a ser engolida. E seu emprego também.

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3 Comentários leave one →
  1. Daniela permalink
    14/04/2010 09:21

    Excelente! Esse texto trará grandes reflexões à reportagem que estou produzindo.
    Muito obrigada.

    • Eduardo Santos permalink
      14/04/2010 10:42

      Obrigado. Sinta-se à vontade para colocar mais comentários e para ler outros textos relacionados aqui no Blog. Principalmente o Perigo do Controle de Qualidade nas Redes.

Trackbacks

  1. O Bloqueio da Internet na China e o caso Google « Eduardo Santos

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